O invisível


Disfarço-me tão bem de
                Humano:
   que chegam a duvidar
   desta autenticidade.
          Quão profano!

Sou invisível perante a 
           Sociotropia.
      Um poste queimado
da qual maldizem e cospem
jurando ira a meu fado.

Hei-me vento nas encostas
    da mente tumultuada!
Carrego-me a todo canto,
 mas não vêem, não vêem
                  [NADA!

BEM-VINDO,
          Cortesia de vendedor.
Eu me arrasto; Mudo pelos cantos.
  Mudo ninguém vê, 
                   mudo ninguém
                         -Sente.

Vive-se como sem alma, auSente!
Vaga-se no passado, no futuro
  [sendo-se sombra da sombra
      vaga-se longe;
           vaga-se no Presente!

Para mudar com mudanças.

 
Cortei meus cabelos
        e continuei
        sendo menos
   eu do que jamais
         fui!

Os cabelos, disseram-me,
crescem; e eu para onde
         irei?

    Já não posso ser
maior que este anseio
de cortar os cabelos;
  Eu já não sei,
se cabelos, se corte!

 Mudei os cabelos!
 Mudei os tamanhos.
 Mudei, apenas mudei!
nesta acabada mudança
    se me estranho;
[mudo tudo,
   e não muda nada.

Continuo
   [o mesmo
 inTacto de sempre!
   [indiferente.

Cortei meus cabelos
 para mudar
 tudo o que era.
Os cabelos longos
 se foram! Foram!
  [e com eles
 todos meus eus.

Hoje não tenho eu,
 e os cabelos curtos
 não representam
mais que uma imagem
 [insólita
         uma tela
deste eu que (NUNCA)
                Fui!

Cortei os cabelos,
  e aqueles cabelos
       [hoje curtos
  me encurtaram!

Sentido!

A noite cai e sinto um desejo incontrolável de ouvir sua voz. Ouvir-te dizer que o dia foi duro, e que amanhã tudo será melhor! Ouvir sua voz aguda a sussurar-me que sentiu minha falta, e eu a dizer-te que daria tudo para te abraçar nesse exato momento. A noite corre céu a dentro, a lua corta o horizonte... as estrelas brilham intensamente, e brilham como pérolas... Só não brilham mais, não são mais intensas, que os gritos que ecoam do horizonte de mim! Se me rasgares, pois, o peito há de encontrar vosso nome esculpido em cada minusculo pedaço do meu coração.

As horas voam, e voam os pensamentos na exata amplitude daquela. E a única coisa que se ouve nessas ondas internas são meus desejos de sua voz. Penso-te, e procuro sua voz em cada som que ouço. Procuro suas palavras em cada sopro. Procuro-te em cada sol, e choro-te em cada lua. Convalesço com a noite que destoa de mim na mesma proporção que te clamo.

Sinto um aperto no peito;
Um desalento me consome;
As flores, o céu, as nuvens esparsas;
Tudo me lembra o teu nome.
Tudo me lembra as tuas falas.

Que sentimento é este que me corrompe à noite, e me faz desfalecer. Sentir-me embriagado de tal modo que nada há que possa me abater ou me alegrar. Por que me sinto tão fora de mim? Por que me sinto tão perto de ti? Já não vejo sentido nos sentidos; Minhas razões padeceram, quando teus olhos encontraram-se aos meus.

Pensamentos...

Tudo me falta, nesse instante;
Sinto uma latência no peito,
uma lembrança daquele jeito
teu de olhar-me com ternura,
fazendo-me beber tua brandura...
E esquecer-se-me ofegante.

Cada pensamento que se me dura,
eclode-se na noite infante!
Como pomares de sentimentos
a exorar à alma doce e pura,
que traga a distinta amante
para onde sopram os ventos.

Se não bastassem os tormentos,
e as súplicas silentes da alma...
Ninguém me vêem, nem os ventos.
Ninguém me vê, nem a calma!
Penoso, clamo-na aos pensamentos,
pois assim meu tormento acalma.

Eu, obsoleto!

Trago-me no crepúsculo onde fumaça é penitência de um eu sem mim. Sei já não o modo pela qual vivo; embora viver seja algo que o pensar não atribua ritmo, pois do contrário viveria mais que qualquer outro.

Sinto-me perdido, embora não me perca há muito tempo. Navejo entre sóis, mirras de fogo, anzóis [...] afogo! Queimo-me nos presságios que não tenho;

Ondas macilentas de confusão atravessam-me como uma tempestade e seus sopros violentíssimos e devastadores. Arrasto-me! Arrasto-me como se arrastam os micros! Arrasto-me por dentre ossos e almas caídas! Arrasto-me nos dias, arrasto-me nas vidas. Eu já não me sou útil, eu já não me sou meu.

Poema do amor ao meio.

Quisera eu poder ser visto
nos castanhos olhos dela.
Quisera eu!
O mundo seria mais pleno,
e plenos seríamos eu e ela.

Mudar

Simplesmente temos que mudar. Reformular tudo! Apagar o que escrevemos e começar tudo de novo. Dar asas à vontade que diz para jogarmos tudo para o alto, e mudarmos o rumo das coisas. Aliviar a inquietação com inúmeras pernas, que movem-se desordenadas.

Arriscar! Nada mais justo que arriscar. Quando a necessidade fala por si, precisamos mesmo mudar a conjuntura falida, e rabiscar novos horinzontes! Sair em busca de um céu, qual não se sabe onde está; D'uma chuva que não precipita...

Apagar o que escrevemos, e começar tudo de novo [sobre as marcas].