Despeço-me

o nada engole minhas palavras
recito versos para olhos inchados
e quando o nada volta,
ainda estou paralisado.
despeço-me das palavras
como faço com o resto de vida
que acaba toda meia-noite
e as horas que não voltam
me lembram que amanhã é tarde
e hoje os dias são números
que não quero contar pra ninguém.
despeço-me de quem não vê
e não ouve, não por não ouvir
mas por escutar pequenezas
de outras estações.
despeço-me dos abraços
que ninguém me deu,
e que eu, por segundos,
cogitei abrir o guarda-roupas
para tirá-los de lá.
despeço-me dos beijos
que rasgaram minhas palavras
e se esconderam onde minha
voz jamais poderá alcançar.

Onde estava eu?

Onde estava eu quando tudo ruía?
Onde estivera eu quando o sol,
o tsunami, o furacão e o arrebol
faziam tudo aparecer, e emergia?

Onde estava eu quando a dor,
o fracasso, a infelicidade, a tristeza,
o desafeto, a saudade, a estranheza,
substituíram o carinho e o amor?

Onde estava eu? Onde eu estava?
Onde? O que me aconteceu?
Dói não lembrar, dói e doeu,

pois amanhã, na tormenta brava
lembrarei que era sempre eu...
eu quem nunca me resgatava.