Entre duas noites

Entre duas noites cabe um mundo,
[desejos infindos, juras intermináveis,
de, em múltiplas vezes incontáveis,
fogo, entre o primeiro céu e o segundo.

Entre duas noites um mundo se destrói
em novos mundos e antigas temeridades,
em poucas palavras e muitas saudades
em silêncio que, do pó, se reconstrói.

Entre duas noites, duas noites se vão!
Corroídas pela chama densa e pujante
que queima e derrete até a sensação

de fatalidade e de dormência exorbitante
que é parte e todo, é fim, início, fusão...
que é fim do fim, e início inconstante.

Quando

Quando a tempestade passar
e sobrar apenas a calmaria,
dias cheios e noites estranhas;

quando o ruído der lugar à música,
sobre as lembranças dos muitos ontens,
e ninguém mais perguntar;

quando tudo estiver feito
e o desfeito for parte da reconstrução,
quero ter guardado cada pedaço
das pequenas coisas
que doem por não existirem
no dia a dia.

Despeço-me

o nada engole minhas palavras
recito versos para olhos inchados
e quando o nada volta,
ainda estou paralisado.
despeço-me das palavras
como faço com o resto de vida
que acaba toda meia-noite
e as horas que não voltam
me lembram que amanhã é tarde
e hoje os dias são números
que não quero contar pra ninguém.
despeço-me de quem não vê
e não ouve, não por não ouvir
mas por escutar pequenezas
de outras estações.
despeço-me dos abraços
que ninguém me deu,
e que eu, por segundos,
cogitei abrir o guarda-roupas
para tirá-los de lá.
despeço-me dos beijos
que rasgaram minhas palavras
e se esconderam onde minha
voz jamais poderá alcançar.

Onde estava eu?

Onde estava eu quando tudo ruía?
Onde estivera eu quando o sol,
o tsunami, o furacão e o arrebol
faziam tudo aparecer, e emergia?

Onde estava eu quando a dor,
o fracasso, a infelicidade, a tristeza,
o desafeto, a saudade, a estranheza,
substituíram o carinho e o amor?

Onde estava eu? Onde eu estava?
Onde? O que me aconteceu?
Dói não lembrar, dói e doeu,

pois amanhã, na tormenta brava
lembrarei que era sempre eu...
eu quem nunca me resgatava.

ab ovo

Deixe-me Cioran, Deixe-me Nietzsche;
Esse Deus morto, viveu algum dia?
Esse Deus (i)moral ainda porfia?
Ou é como cada coisa que não existe?

Não me falem de Deus, não o quero!
Odeio ter que engolir pelos ouvidos
cada torto gemido desses falidos
seres que o adoram, enquanto desvenero.

Não falem de Deus, nem de nada!
Não sou ateu, até pra isso preciso ser...
Ser a negação, o verbo inicial contra tudo

Ser o primeiro tijolo contra a estrada
que não leva ao início fundamental do ter
em si qualquer coisa... contra um escudo!

Estrela de Nêutrons

Eu que te beijei tantas vezes,
que te abracei e ouvi tuas juras
com os lábios em meus ouvidos.

Eu que vivi tua pele, teus cabelos,
suas mãos e suas lembranças táteis,
incorporando gestos e toques.

Eu que fui teu colchão,
teu pelo e teu travesseiro,
fui teu abraço de outono.

Eu que fui tua cicatriz, tua…
tatuagem, tua maquiagem…
suas noites tantas vezes…

Hoje sou a exclusão de Pauli,
e somos o toque, a fusão,
enquanto renascemos, juntos,
em uma estrela de nêutrons.

A vida

Deveis rasgar as entranhas do terrorismo,
fazer brilhar as mordaças, as dores, os males,
abrir as covas da pobreza que assola os ares
de cujas escrituras tem a firma do imperialismo.

Viveis sob as tórridas tempestades do capital,
onde cada dia é morte, e cada morte é esquecimento,
e tudo é mercadoria, todo corpo, toda fé, todo alimento...
tudo até a alma que vaga enterrada no quintal.

A vida, porém, merece outro véu, outro horizonte.
Viver merece tempo, conforto, pão e ternura...
Viver merece igualdade na forma e na largura

para que todo alimento seja um forte e uma ponte
entre o bem-viver e viver bem na candura
do tempo que não é exploração, é ruptura.