Tempo

Seus olhos caem sobre o passado.
Incauto, um sorriso em mim nasce;
descalço, uma lágrima me dobra a face;
Ontem era tudo, hoje sou decotado.

O tempo que passa e me atravessa;
é adaga que suga minha serenidade;
e rasga minha dor, minha saudade,
de não viver a claridade e a promessa.

O presente é outro; é passado colorido;
que desbota e bota o tempo em rotação;
e gira o mundo e põe tudo em colisão

com a vida, e a dor, e o tempo e a libido!
O presente não é presente, é decisão...
é exercício, é fazer, é realizar, é sentido.

Saudade

Os raios de sol rasgam o céu escurecido,
o breu que consumiu os olhos, em vão,
agora tem a cor de beijo e cor de ilusão;
cor de horas devoradas e amor perdido.

Amanhecido, toda cor é cor-imaginação;
Lâmina cega que recorta o céu sumido,
do desejo roxo, da totalidade, dever-ido;
do dever-ser, do ser, da perda, do dever-não

Na escuridão, a fonte de toda luz é vermelha;
é cor pura, e rubra, e puríssima cor-vontade;
Cor que desmembra o chão e a centelha

de vaidade, que é terna e tenra comorbidade
de uma cor solitária que não é cor, nem espelha
a fortuna ou a ira; é cor-dorida; cor-saudade.

Amor

Ah! amor que é fogo e ardente inverno.
Quão decepcionados estão os astrólogos,
que somam estrelas e criam prólogos
sobre a chama viva d'um eterno inferno.

Inferno? Senão, o quê? Poesia? calmaria?
Ah! amor que é cabresto e devassidão.
Que laça, corrompe e rompe a terna ilusão
de candura, fortuna, pecado e heresia.

Ah! inferno de amor que tudo incendia!
É amor que queima? É amor que apaga?
É amor o amor que mata enquanto afaga?

É amor que transcende e nunca titubeia?
É amor? É fogo? É chama? É dor e adaga?
É amor! É tudo que há e tudo que permeia.

Dor

A dor de amor mais me cansa;
penso, vagueio, choro, adormeço,
Não vivo um dia, nem padeço,
enquanto a vida dói e me amansa.

Ontem estive triste e hoje também,
Amanhã não sei se será tempestade
Ou inverno, ou brisa ou amenidade;
Não sei se será todo mal ou tudo bem!

Amanhã não chega, nem a escuridão;
sinto o amor partir-me e repartir
cada lasca do meu puído coração,
e, em vão, choro e durmo no ruir.

Entre letras tristes e triste consolação,
amanhã não chega, nem hei de permitir;
e o mal que me causa essa consternação
será o mal que fará me redescobrir.

Prometo

Prometo-te, todos os dias, fazer AMOR!
Escolher-te nas noites mais escuras,
nas tormentas mais doridas e impuras.
Escolher-te no frio do inverno ou no calor!

Prometo-te fazer AMOR e aprender amar,
escolher-te para a vida real e barulhenta,
na calmaria do rio e na madrugada sedenta,
Namorando cada detalhe que te faz pulsar.

Prometo-te, que amanhã, vou te encontrar
e faremos AMOR, amor namorando,
tocando, beijando, vivendo, flertando...

Prometo-te que farei o AMOR te achar,
enquanto vou te amando e te cuidando,
e vou fazendo esse AMOR se provar!

Entre duas noites

Entre duas noites cabe um mundo,
[desejos infindos, juras intermináveis,
de, em múltiplas vezes incontáveis,
fogo, entre o primeiro céu e o segundo.

Entre duas noites um mundo se destrói
em novos mundos e antigas temeridades,
em poucas palavras e muitas saudades
em silêncio que, do pó, se reconstrói.

Entre duas noites, duas noites se vão!
Corroídas pela chama densa e pujante
que queima e derrete até a sensação

de fatalidade e de dormência exorbitante
que é parte e todo, é fim, início, fusão...
que é fim do fim, e início inconstante.

Quando

Quando a tempestade passar
e sobrar apenas a calmaria,
dias cheios e noites estranhas;

quando o ruído der lugar à música,
sobre as lembranças dos muitos ontens,
e ninguém mais perguntar;

quando tudo estiver feito
e o desfeito for parte da reconstrução,
quero ter guardado cada pedaço
das pequenas coisas
que doem por não existirem
no dia a dia.