Flogose XLII

Não são as lágrimas, mas as coisas por trás delas que fazem a diferença! Hoje, enquanto o frio consome a noite, lembrei de algumas poucas lágrimas que cairam do céu. Aquelas lágrimas boas que lavam a face do mundo. Aquelas que devem ser lembradas e esquecidas para que a cada nova lágrima deixemos nos surpreender. As lágrimas do céu, as do mundo ou as das pessoas são lágrimas que exalam um sentimento... E eu as lembro. As guardo na memória para sempre esquecê-las, pois só assim me surpreendo com as novas.

Flogose XLI

Essa vida de gente grande é foda. Eu que só quero continuar a ser criança. Pois muitos amigos meus ainda são crianças. E sempre os quero acompanhar ao parque e comer algodão-doce, enquando descemos o escorregador ou brincamos no balanço... Não quero crescer, apenas não quero. Por quê crescer me trouxe insônia! E eu, diferente, talvez, de muitos outros, gosto de ser criança, de poder me sujar de lama e levar bronca da mamãe quando chego em casa... É pecado querer ficar deitado na cama, enquanto a minha mãe me cuida de uma enfermidade? De poder chorar sem motivo aparente. De poder ficar de castigo, por não ter feito algo corretamente? E digo que só e apenas só quando sou criança é que eu fico momentânea e idiotamente feliz! E esta é uma felicidade tão doce e simples que deixa tudo a sua volta lindo. Sabe quando você acorda com um aperto no peito? Eu acordei assim hoje, pois descobri que já tenho barba e insônia.

Flogose XL

Andava pela rua, inabitada, quando um som começou a soar pelo vento. Uma música. Um concerto. Desconcertantes os passos seguiram involuntáriamente a fim de encontrar aquilo que era um paraíso para os ouvidos. Quanto mais próximo da origem do som, mais deleitosa era a experiência... A música, que possuía um tom melancólico, vinha de um piano. Aquele instrumento! Aquele colosso de musicalidade e romântismo. Aquele vibrar de alma e coração... Houvera chuva, houvera sol... Houvera constelações e arco-íris, Auroras Boreais e Luas... Houvera vida e morte... Sempre houvera... Nada se comparava à brisa fina e tibiosa. À solidão. À beleza dos jardins de inverno. E principalmente a melodia que ressoava daquele instrumento dívino... Anos se passaram... Não era pastoril o clima que consumia a música, nem romântico... Era uma alma em claves de sol e claves de sol em sons refinados e magníficos. Era Mozart deitado sobre o vasto campo, que cercava-se de montanhas, uma neblina fina e fria, arvoredos e flores, olhando o céu e contemplanto as contelações enquanto em sua mente o réquiem era tocado no piano da sua alma... Enquanto encontrava, andando dentro de si, a perfeição dos sons.

Flogose XXXIX

Um galante soprado pelas chamas frias do deserto da emoção e da paixão, jaz florecido entre os cálidos espinhos do vosso menosprezo e o veneno vosso de amargura. E com pesar a indignação corre os prados do desejo consumível, quando em noites quentes, o ser apaixonado chora lágrimas lúgubres sobre os botões que lhe cercam a vista e chora sem lágrimas a saudade de nunca lhe ter tocado, sutilmente, a face. Com que desejo o sol consome a escuridão na aurora? Este, talvez, é o mesmo desejo sentido pelo coração amante no ato de consumir-se no sentimento edificado em favor do ser amado à distância e à sombra sua... Não menos triste são os cantos de lamento e devoção entoados pelas vozes tristes e tristes versos de amor. Há uma realidade entre o desejo e o bem desejado, mas as vezes essa realidade não se comunica, e nem a seta passional consegue unir as pontas deste sentimento que deveria ter a forma circular... Consumir-se-ão os amantes às coisas amadas e assim, em separado ou não, os sentimentos tomarão seus cursos, seja noite, seja dia...

Flogose XXXVIII

Como as coisas são estranhas, pensava o homem parado num ponto de onibus da rua Sete, enquanto sentia a garoa extremamente fria e dolorosa. É estranho como as coisas mudam e não se nota. Como as pessoas vão e vem, aparentemente, sem destino pela garoa e pela tempestade de frio que cobre as luzes alaranjadas dos postes sem fios. Os carros parados esperando as luzes vermelhas transformarem-se em verdes, pouco atentos às ocorrências no exterior do carro. No interior, contudo, o som selvagens do Muse eleva a ânsia de carregar o acelerador e sentir o pneu queimar a sorumbática e fria rua sete. Sete também foram os minutos que o homem pensou sobre todas estas estranhezas antes de o onibus aparecer. Como tudo o mais na rua sete, o homem estava desatento. Dirigiu-se ao ônibus, e por coincidência talvez ou não, foi no primeiro degraus do ônibus que o sétimo passo foi dado... O ônibus possuia os degrais de um ferro, que estavam sujos e lamacentos, assim como boa parte do ônibus... Soprou um vento forte e no mesmo intante ouviu o homem um trecho de "hysteria" e nesse momento de desatenção o homem tentou apoiar o pé para colocar o outro por sobre o sétimo passo e primeiro degrau. O sétimo passageiro, que pela fila indiana se via, havia corrido para embarcar. O homem, descuidade, escorregou e caiu do ônibus batento com a cabeça numa das pedras-base do ponto-de-ônibus, onde ao lado estava o sétimo passageiro. Conseguiu sussurar sete palavras e sete também foram as vezes que os olhos dele piscou. No sétimo minuto após o infeliz tombo o homem perdeu o vigor. Era o sétimo dia do mês, do sétimo ano, após o segundo milênio. Ouviu-se sete pessoas dizerem a palavras estranho. Não mais estranho é o fato de que o homem após sete dias voltava ao mesmo ponto-de-ônibus, às sete horas da noite e embarcava o ônibus número sete. E foi, precisamente, após sete minutos, de que havia entrado no ônibus, que um aneurisma lhe ceifou a vida, no sétimo banco...

Flogose XXXVII

Nada. O que é nada? A ausência de tudo? As vezes sinto esse nada e o nada preenche muito espaço e assim acaba por se tornar muito... E, outras vezes, esse nada é apenas nada. Quero entender o nada, mas o sentimento que compõe este nada não me deixa falar. As palavras apenas não diriam o que o nada representa dentro do contexto... Mas aí a chuva volta e o nada é apenas nada. Nada!

Flogose XXXVI

Sabe quando o céu tem aqueles insights que o clareiam todo de forma a proporcionar uma religião nova nas coisas comuns. É destes dias que vivo. São eles a quem espero e a eles que procuro incessantemente. Quando os encontro, e Deus sabe, as coisas fluem, pois aquele líquido lava qualquer mácula que possa existir em qualquer parte do exterior ou interior... Hoje foi um desses dias... Os insights estavam em todas as partes e embora a beleza estivesse além deles não havia necessidade de estagnar, pois tudo foi um conjunto que dava liberdade a cada beleza e as unia num só tom. Eu quis estar lá, mas as estrelas, que hoje não aparecem, infelizmente, já ocupam este espaço e o ocupam muito bem... A natureza que está acima é magnífica. É uma música que poucos apreciam. Talvez Bach soubesse bem o que esse céu tanto canta... Continuarei com o céu, lá sou livre quando cá me esqueço.