A promessa

Devora-me, ó pecado lascivo
que perpetua minha maldade.
Devorar-te-ei toda dignidade,
em cada sonho permissivo.

Toma-me, se o puder, por bandido,
louco, vadio, réu ou truão.
Toma-me além da própria razão,
pois por nada serei impedido.

Se a promessa hei cumprido,
cumprirei também meu fado,
pois tanto mais for exigido,

mais esgotarei meu pecado
de viver bem e bem-vivido,
enquanto na terra cultivado.

Quis do amor ardores

Quis do amor ardores,
e fostes tu pura ilusão.
Amar por quê, amor?
Se amor não é lição.

Revigorei viris plumas
de sentimentos vãos,
encontrando escumas
em lírios-mares sãos.

Eis-me em libélulas,
pueris tempestades,
castos sonhos [piedades!]

altivo em todas células,
e represado em vaidades...
pois navego já sem velas.

Choro

Chorei o tempo impoluto,
em que temia o puro medo.
Chorei, mas em segredo,
ao criador e ao fruto.

Assim como qualquer adulto,
chorei às vis e ensanguentadas
rosas do deserto de fadas
banhadas em lama e insulto.

Pedaços de contemplação,
em que as lágrimas cediam
à poeira da imagem-criação.

E eu? Eu chorei! (Doíam)
Chorei em cada encarnação,
em vão, renunciando Yan!

Promessas

Eu prometi que não prometeria,
que não seria... não esperaria.
Prometi que tudo não mudaria,
e que tudo, tudo... permaneceria.

Eu prometi que não mentiria,
que palavrões eu não diria.
Prometi apenas e só alegria,
e felicidade noite, tarde e dia.

Eu prometi que não fugiria,
que os vícios pesados deixaria.
Prometi que tudo passaria.

Eu prometi que não fingiria,
que o mundo melhor seria,
só não prometi que cumpriria.

Pecador

Pecado meu! Tara luxuriosa,
eis-me aqui, pecaminoso,
entre cada cão primoroso,
que não ladra, mas glosa.

Eis-me vulnerável à vara,
que cujas mãos não tremem,
só, em momentos, estendem
em subserviência à cara.

Pecados que me soçobram,
e deleitam aos juízes boçais,
são meus, e me adoçam...

me adoçam bem e demais,
pois livrar-me destes animais
requer pecados colossais.

Olhar vazio

Folhas vazias. Quarto escuro.
Eis o que se vê,
                       ou não se crê!
                      insípido futuro!

Inquietação constante, irritável.
Quem come o que sonha?
Quem não sonha?
Cadê o movimento reprovável?

Da escuridão a luz é maior,
mais brilhante e mais bonita.
Porém, conhecer o pior
e nada fazer é vida aflita.

Olhar vazio em mente quebrada.
Pensamento descosturado,
Não desconstrói o passado,
nem muda a vida desgastada.

Fruto

Eis-me como um fruto,
que completamente amadurecido,
desprende-se d'onde nascido,
e cai... no sofrer arguto.

E cai, por que deve cair,
aprendendo com o desabamento.
Revivendo a dor e o termento,
que é sentir-se emergir.

E fruta d'uma árvore celestial,
que, para tornar-se madura,
deve abandonar o umbilical

galho teso que lhe segura,
pois amarelar é sempre vital,
para seguir a curta aventura.