A vida complexa dos azulejos
Daquilo que se perde sem querer...
Daquilo que não se conquista
Antecedentes
— O que eu vejo é o beco.
[Manoel Bandeira]
Eu que já tanto disse, hoje, contudo, engulo minhas amargas palavras. Elas possuem o gosto do fel! Falo, mas tu não me ouve. Não me escreve. Não me lê. O que foi que eu fiz? O que foi que não fiz?
Não é como antes que não me ouvia, apenas para não se lembrar que minhas palavras não tinham importância alguma. Agora é tudo diferente, indiferente. Faço-me em rasgados verbos, mas nenhuma conjugação te impressiona. Nada te impulsiona, nada te agrada, nada!
O que foi que eu fiz?
Hoje sei. Quis conhecer-te, quando um alguém não mais quisera!
Cortinas
Levanto-me, com cuidado.
Deslizo até a janela,
descortino-a, e vejo.
Vejo o sobejo rio,
e rio.
Solitário,
a vasta ingênuadade
que me escapa,
quando se fecham
as cortinas.
Ninguém!
Falo, ouço, perturbo,
ninguém, ninguém.
Toco a campainha,
ouço passos no sótão,
ouço gritos, e grito.
Ninguém me ouve!
A percepção de mim
não é audível!
Passo os passos,
volto e revolto,
sigo e contorço.
Ninguém me ouve!
Ninguém ouve.
Ninguém.
Fico, e sacrifico,
vejo os ninguéns,
ninguém olha!
Ninguém me ouve!
Os ninguéns tomam
conta de tudo.
Por todo canto há
ninguém calado e
ninguém surdo.
Ninguém me ouve!
Ainda assim eu
ouço, e aboreço.
Ando os sete cantos,
apedrejo ninguém,
ninguém se importa.
Ninguém me ouve!
Tudo transcorre
como se no vertíce.
No vertíce de ninguém,
e ninguém se preocupa,
e o nada toma conta.
Ninguém me ouve!
Entristeço e clamo
por rendição.
Outro engano,
ninguém quer ver,
e os olhos ardem.
Ninguém me ouve!
Desmorona o céu,
e rogo pragas.
A vida acaba,
e ninguém me ouve,
e me amargo.
Ninguém me ouve!
Não ouve ninguém,
não houve.
Restam os ecos,
do ninguém disse,
e ninguém ouviu.
Ninguém me ouve!
Me calo, sou ninguém.
Já não me ouço.
O ser.
porém - e há um porém -
a gente é tudo que vem
de tudo que não ficou.
É deveras importante,
pois, ser-se alguém
do preço de um vintém,
do valor d'um diamante.