Flogose XCVI
Luis Fernando Verissimo disse:
"Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo o impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."
Flogose XCV
Tão fácil dizer algumas coisas, enquanto que outras encontramos dificuldade tamanha em proferí-las. Existem inúmeros subterfúgios e todos eles cabem exatamente na boca, quando outra coisa, mais necessária a ser dita, não sopra dos pulmões. Eu poderia facilmente dizer inúmeros pensamentos aqui, contudo não conseguiria proferir um que fosse tão íntimo a ponto de me trazer algo tipo de vergonha.
Muitas vezes nos encontramos nestes becos. Nesses poços escuros e lamaçentos, e não há voz nenhuma que sopre de canto nenhum do mundo que nos fará pensar ou ajudar-nos-á a tomar uma decisão sensata sobre o que deveríamos realmente dizer.
No contexto geral quanto mais importante é o que temos que dizer, menos facilidade tempos em dizer. Esses muros sem janelas já são meus recantos há tempos. Muros e muros. Nenhuma ponte, nenhum castelo, apenas um muro altíssimo! Tão alto quanto é profundo o oceano e tão vasto quanto o deserto do Saara.
Cercar-me-ia de água, caso houvesse opção de fazê-lo. Devo falar, sim realmente devo, mas não falo. Se falo minto, se não falo minto. Tudo é mentira! A verdade está guardada dentro de um minúsculo átomo no cérebro e tão pequeno quanto este é o desejo de expor tal verdade, enquanto que tão grande quanto o universo é o desejo de ver-se livre deste átomo corrosivo.
Importa-me dizer que algumas coisas inventadas, as vezes, soam com melhor timbre que a própria verdade. Os sinceros, convenhamos que não há benefícios em sê-lo, estão rotineiramente acometidos de algum mal que provém de sua boca, de sua fala. Falam e falam, costumeiramente, o que acham, pensam, o que lhes é verdade. Todavia ninguém bebe um copo de verdade por dia, pois o sabor é muito amargo, tanto para que cospe, quanto para quem engole! O sincero é todo aquele que ninguém gosta de tê-lo perto, a não ser que haja um benefício em tê-lo perto, ainda assim não gosta!
Falaram-me, certa vez, que não convém omitir quando a postergação de um ato possa trazer prejuízos maiores, se forem derramados num futuro próximo. Vejo, contudo, que independente do momento em que bebamos da verdade o gosto será o mesmo e a dor estomacal será a mesma. É bem verdade que fatores externos podem intensificar as percepções e deixá-las muito maiores do que são, mas isso é relevante? Ser-nos-emos menos "malvados" se falarmos algo, não hoje, mas amanhã ou depois? Não, creio que independente do momento haverá sempre alguém para falar: - Agiste precipitada e nefastamente!
É melhor não dizer. Sim, é sempre melhor não dizer! Em algumas coisas as pessoas não acreditarão quando a verdade for exposta e em outras se omitir uma mentira insistirão que você realmente fez, o que absolutamente não fez. Não há remédio para isso. E quando houver necessidade de promover justiça com a verdade, ainda assim é melhor omitir algumas coisas, pois haverá alguém que se sentirá lesado.
Há meses que em minha cabeça habita um monstro sem face! E todos os dias esse monstro diz que tenho que fazer algumas coisas, mas tais coisas não parecem sensatas. Quer dizer, sensatas até que são, mas não seriam justas se eu indicasse alguns pressupostos que constituem os atos da peça inteira.
Normalmente um personagem faz algumas coisas tentando não machucar as pessoas, mas sabemos bem que sempre machucam, ainda que não tenham intensão de fazê-lo. Eu não sou esse personagem! Sou o vilão. O lado negro da força. Hesito diante das conjunturas visando estruturar o terreno para a plantação e planto! E nascem muitas coisas, mas nada do que queria eu que nascessem. Aqui entra o segundo ato, ato este que constutiu acabar com a plantação (sou mesmo o vilão, não?). Creio que não há solução outra que não esta.
Ser sincero é um vício que não tenho! Ademais não poderia ser sincero, pois isso é um defeito que traz problemas significantes para o contexto geral das relações.
- Isso meu amigo, vá em frente e faça o que tem que fazer. Alguém sempre irá sofrer, talvez esse alguém seja você, tudo é possível!
Gostaria de poder dizer isso sem que tais palavras causassem um certo temor ou ressentimento. Impossível, sinceridade e falta de temor são produtos que quase nunca se misturam e quando misturam coisa boa não sai.
{Pensamentos e exemplos omitidos}
Não minta, mas omita! A verdade é valiosa demais para ser a causa de sua ruína.
{...}
Flogose XCIV
VERDADES.
A aliança Luis Fernando Verissimo Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro. Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las. — Você não sabe o que me aconteceu! — O quê? — Uma coisa incrível. — O quê? — Contando ninguém acredita. — Conta! — Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada? — Não. — Olhe. E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança. — O que aconteceu? E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo. — Que coisa - diria a mulher, calmamente. — Não é difícil de acreditar? — Não. É perfeitamente possível. — Pois é. Eu... — SEU CRETINO! — Meu bem... — Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria. — Mas, meu bem... — Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha! E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente: — Que fim levou a sua aliança? E ele disse: — Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei. Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam. — O mais importante é que você não mentiu pra mim. E foi tratar do jantar.Esta é outra estória que não me causa estranheza. Há nela muita coerência com os fatos do mundo real. Isso acontece, e poderia dizer que existe frequência nos acontecimentos de tais situações. É melhor fazer assim que ser desacreditado na verdade contada, verdade esta que passará por mentira e acabará em maiores conflitos. A única verdade é que a verdade é complicada demais para ser dita, em algumas vezes.
Flogose XCIII
Pelas tantas da noite o cérebro começa a afundar-se em pensamentos e mais pensamentos, muitos deles vagos demais para se prender a eles, muitos outros sem o mínimo de comprometimento com o que se deve pensar, todavia são todos eles vagos todos os que vem à noites, já que a maioria se acompanha de sentimentos inutilizáveis.
Não há muito que se possa fazer numa situação dessas. O melhor seria beber, mas como o álcool não apetece-me a mente, como faz o cigarro, melhor foi procurar dentre minha pequena biblioteca algo para se ler. Foi então que encontrei: A Verdade, que agora transcrevo.
“A verdade Luís Fernando Veríssimo. Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamantes ser levado pelas águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em sua casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancara o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margaridas. Os pais e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse: Agora me lembro, não era um homem, eram dois. E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse: – Então está com o terceiro! Pois se lembrava que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para o espanto dela. – Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida – gritaram os aldeões – Matem-no! – Espere! – gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca em seu pescoço – Eu não roubei o anel. Foi ela que me deu! E apontou a donzela, diante do escândalo de todos. O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel dizendo: “Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará o seu amor.” E ele sucumbira , pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra. Todos se viraram contra a donzela e gritaram: “Rameira! Impura! Diaba!” e exigiram o seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço. Antes de morrer, a donzela disse para o pescador: – A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade? E o pescador deu de ombros e disse: - A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.”O interessante na estória é que ela própria é a mais pura verdade, pois normalmente omitimos ou mascaramos a verdade sob o subterfugio de que ninguém acreditará nela. As razões pela qual a omissão da verdade é mais valiosa que a verdade talvez se deva ao fato de que a verdade é muito mais simples do que deveria ser. Contemos a verdade e vejamos quem realmente acredita. Somos ensinados, quando crianças, que não devemos mentir, mas ninguém quer realmente saber a verdade. O que fazemos então?
Flogose XCII
Conversa de bar.
1- Deus não existe.
2- Claro que Deus existe, tanto existe que já provou sua existência.
1- Provou como? Nunca vi nenhuma evidência de que ele existiu ou exista.
2- E os milagres? As pragas do egito? O mar que foi aberto?
1- Isso a ciência já provou que pode acontecer sem o dedo de Deus.
2- Mas a coincidência é muito grande não acha?
1- Não acho, não.
2- O mundo foi criado como então?
1- Os cientistas já provaram que o mundo foi feito por quatro elementos básicos.
2- E quem criou os elementos...
1- Os elementos já existiam...
2- Não vem com essa, Deus existe sim.
1- Não existe.
2- Existe.
1- Não existe.
(Um assaltante entra gritando)
A- É um assalto.
1- Meu querido Deus (deitado no chão com as mão atadas) por favor me ajude. Eu prometo que nunca mais falo Seu nome em vão.
2- Oh! pára de brincadeira! Esse negócio de assalto não pega mais e é uma brincadeira muito da sem graça! Senta aí e vamos tomar uma cerveja com a gente.
1- (baixinho) Obrigado senhor.
Flogose XCI
Conversa de bar!
1- Essa história de amor é uma farsa.
2- Você está louco?
1- Estou dizendo. É uma farsa.
3- Não concordo. Não existe farsa no amor, as pessoas amam.
1- Não! O amor se resume ao bom e velho sexo.
2- O sexo sem amor é como... como... como...
1- Sexo sem amor é sexo. Amor sem sexo é sexo.
3- Não, não, não! Sexo sem amor é cerveja sem espuma.
1- O amor não existe.
2- Existe. Eu amo minha mulher.
4- Acho que estou bêbado.
1- Não há nada melhor que sexo.
3- Há sim, o amor.
2- O Amor.
1- O amor é uma ilusão, uma ILUSÃO.
4- Acho que vou vomitar.
3- Acho que sou romântico.
2- Pode ser.
1- Deixem de loucura. O amor é coisa tola.
2- Eu amo e ponto.
3- Não vamos mais discutir sobre o amor. Acredita quem quiser.
4- Olha que maravilha de garçonete.
3- Uma boneca, não?
1- Uma graça e tem um sorriso encantador.
2- Eu poderia amar uma mulher como aquela...
1- Mas você já não ama sua esposa?
2- Sim, mas é diferente.
3- É diferente.
4- Está acabando a cerveja. Eu amo cerveja.
1- Você são tapados! Não sabem o que é o amor.
2- E é você quem vai nos dizer o que é o amor?
3- É você?
1- Por quê não?
4- A cerveja acabou!
2- Você nunca amou ninguém. E é incredulo.
3- É. Você é incrédulo.
1- Isso não tem nada haver. Eu sei o que é o amor.
2- Sabe coisa nenhuma.
3- Coisa nenhuma...
1- O amor é um sentimento arrebatador. Que desnorteia as pessoas. Deixam-nas cegas. Deixam-nas sem medo. É um sentimento que faz a pessoas quererem estarem perto das outras sem ao menos saber por quê. Faz com que pensemos que a vida começa com uma pessoa e sem ela tem que terminar...
2- Como é?
3- hum...?
4- Chegou a cerveja. Vamos beber.
1- O que eu disse?
2- Acho que está apaixonado.
3- Está apaixonado!
1- Não estou. Só sei...
4- Amo cerveja e amo a garçonete.
1- A garçonete. Eu faria amor com ela...
2- A-há... Se confessou.
3- Confessou!
1- Acho que estou amando.
2- Isso vale um brinde.
3- Um brinde.
2- O amor deixou de ser ilusão?
1- Acho que é o efeito do álcool. Preciso de sexo, por quê o amor me deixou tonto.
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