Castelando.

Eu sou um castelo recolhido na areia. O sol que aquece o castelo é minha vaidade. Eu sou castelar, e vou castelando. Sou saudade! Enquanto a areia se transforma em mim sou eterno. Enquanto o sou me castiga sou sol interno. Enquanto me vingo sou austero. Sou castelo, sou invisível, sou sol e sou torto. Enquanto vivo, enquanto morto.

Bang!

Ouvia the drugs don't work do verve por dias a fio. Sentia-se como se a música o pedisse. Dizia: Eu espero que você pense em mim quando você deita no seu lado da cama. Era triste ouvir. Triste sentir o orvalho brotar daquela rosa face. O coração rachava como o sertão agreste. A vida rachava. A dor... consumia. As drogas não faziam efeito. O céu do quarto era absoluto. O teto antropófago. Chão vermelho. Um buraco no estômago cauterizado pela dor. Um som: Bang! Um fio vermelho chorado pelo ouvido!!!

Está tudo errado...

Não, não. Está tudo errado.
Tudo se perdendo nas areias.
Os canais fechando-se céu,
revelando-se estão as teias.

Está tudo mais que perdido,
e tudo mais-que-perfeito...
É tudo, então, resto parte
esquecido no mal desfeito.

Está tudo, tudo, tudo falido!
A ermida caida na solidão
do povo que vive de amor
imprestável e de adoração.

Está presente a chama viril,
o fogo-fátuo da impavidez;
A garra dos maus pecadores,
o silêncio do que nada fez.

Está criada a nova ordem,
a vida em sua nova imagem,
o laurear da vicissitudes,
o regozijar da vassalagem.

Está! Sim, está tudo perdido;
Já não existe instituição,
é tudo carência, desordem...
é tudo pendência, degradação.

Existência

Num átimo tornei-me teu; Cativou-me o olhar, cegou-me os sentidos; Fez-me novo, entre a explosão. Senti-me renascido; vencido; perdido... Caído em teus enleios de amor. Eu quem sou? Eu quem? Sou o fogo que arde em tua voz, e a voz que ecoa em tua alma. Tua alma ardente, e a ardência que és tu. Sou tudo que tu és, e sem ti nada sou. Sem ti nada é, sem ti nada existe!

As horas

Eram as horas que o incomodavam. Eram aqueles ponteiros e aqueles barulhos. Era o tempo e as lunações. O grande e imaterial tempo, principalmente. Ele - mais do que qualquer outra pessoa - se sentia um prisioneiro do tempo. Sentia medo daquele sentimento do movimento de um corpo em relação a outro. Era como se a quarta dimensão fosse um monstro, e para ele não deixava de ser. Pavoroso! Pensou em fugir para uma quinta dimensão ou, simplesmente, anular a quarta e ficar com as três que tanto apreciava. Era impossível. O tic-tac eram duas marteladas consecutivas em sua existência. Resolveu, porém, entender o tempo como uma ilusão, assim o fez. Continuava sendo medonho, porém o medo advinha do fictício. A única coisa que ele desconhecia era que os seus batimentos cardíacos desafiavam a ilusão, pois batiam um silêncioso e mortal tic-tac.

Pedaços

Por quê não podemos, simplesmente, guardar uns sentimentos no bolso para usá-los quando quisermos? Usá-los de forma desmedida e desmoderada? Ter o poder, por exemplo, de dar amor a quem temos ódio mortal. Dar carinho a quem precisa de carinho. Oferecer, a quem sempre pede, orgulho. Ternura... Seria bom? Ruim? Essa miscelânea de sentimentos é o que nos faz humanos? Será? Eu, no fim das contas, queria ter um bolso. Dobraria cada sentimento e guardaria nele para usá-los de forma mais racional. Para testar cada sentimento! Por que, sendo humano, a única coisa que aprendi foi a deteriorar. Hoje faço isso bem, deterioro tudo, inclusive sentimentos!

Curiosidade!

A curiosidade é um defeito. Um péssimo defeito, cujo maior atributo é a ânsia de matar a própria curiosidade. Esse era o mal de Carlos. Homem demasiadamente virtuoso, contudo de uma curiosidade estratosférica. Daqueles que não se aquietava enquanto não matava a curiosidade. Tão curioso, que ao lhe sussurrarem sobre um acidente terrivelmente trágico, foi em sua procura. Para a supresa de Carlos o acidente - trágico, terrível e letal - da qual foi a procura era o seu próprio.