Deus

Eu que já estive em mundos
perdidos e desencontrados
deste universo de moribundos
me pergunto: cadê os recados?

Não os vi, mas deveria.
Ah! se deveria. Muito.
Além de qualquer letargia,
sem promessa ou intuito.

Deveria ser um sinal,
nada que pudesse subestimar.
Um sinal. Um oi. Banal.

Demonstração do amar,
como quando se diz, afinal:
Aquiete, ligo quando chegar.

A promessa

Devora-me, ó pecado lascivo
que perpetua minha maldade.
Devorar-te-ei toda dignidade,
em cada sonho permissivo.

Toma-me, se o puder, por bandido,
louco, vadio, réu ou truão.
Toma-me além da própria razão,
pois por nada serei impedido.

Se a promessa hei cumprido,
cumprirei também meu fado,
pois tanto mais for exigido,

mais esgotarei meu pecado
de viver bem e bem-vivido,
enquanto na terra cultivado.

Quis do amor ardores

Quis do amor ardores,
e fostes tu pura ilusão.
Amar por quê, amor?
Se amor não é lição.

Revigorei viris plumas
de sentimentos vãos,
encontrando escumas
em lírios-mares sãos.

Eis-me em libélulas,
pueris tempestades,
castos sonhos [piedades!]

altivo em todas células,
e represado em vaidades...
pois navego já sem velas.

Choro

Chorei o tempo impoluto,
em que temia o puro medo.
Chorei, mas em segredo,
ao criador e ao fruto.

Assim como qualquer adulto,
chorei às vis e ensanguentadas
rosas do deserto de fadas
banhadas em lama e insulto.

Pedaços de contemplação,
em que as lágrimas cediam
à poeira da imagem-criação.

E eu? Eu chorei! (Doíam)
Chorei em cada encarnação,
em vão, renunciando Yan!

Promessas

Eu prometi que não prometeria,
que não seria... não esperaria.
Prometi que tudo não mudaria,
e que tudo, tudo... permaneceria.

Eu prometi que não mentiria,
que palavrões eu não diria.
Prometi apenas e só alegria,
e felicidade noite, tarde e dia.

Eu prometi que não fugiria,
que os vícios pesados deixaria.
Prometi que tudo passaria.

Eu prometi que não fingiria,
que o mundo melhor seria,
só não prometi que cumpriria.

Pecador

Pecado meu! Tara luxuriosa,
eis-me aqui, pecaminoso,
entre cada cão primoroso,
que não ladra, mas glosa.

Eis-me vulnerável à vara,
que cujas mãos não tremem,
só, em momentos, estendem
em subserviência à cara.

Pecados que me soçobram,
e deleitam aos juízes boçais,
são meus, e me adoçam...

me adoçam bem e demais,
pois livrar-me destes animais
requer pecados colossais.

Olhar vazio

Folhas vazias. Quarto escuro.
Eis o que se vê,
                       ou não se crê!
                      insípido futuro!

Inquietação constante, irritável.
Quem come o que sonha?
Quem não sonha?
Cadê o movimento reprovável?

Da escuridão a luz é maior,
mais brilhante e mais bonita.
Porém, conhecer o pior
e nada fazer é vida aflita.

Olhar vazio em mente quebrada.
Pensamento descosturado,
Não desconstrói o passado,
nem muda a vida desgastada.