Curiosidade!
A curiosidade é um defeito. Um péssimo defeito, cujo maior atributo é a ânsia de matar a própria curiosidade. Esse era o mal de Carlos. Homem demasiadamente virtuoso, contudo de uma curiosidade estratosférica. Daqueles que não se aquietava enquanto não matava a curiosidade. Tão curioso, que ao lhe sussurrarem sobre um acidente terrivelmente trágico, foi em sua procura. Para a supresa de Carlos o acidente - trágico, terrível e letal - da qual foi a procura era o seu próprio.
As cortinas
Era como descortinar um passado sombrio, e enterrar as memórias faustas. Ele só queria um pouco de terror em sua vida, já que a felicidade era tudo que tinha desde que tinha vida. Felicidade era um mal necessário, dizia. E para quê? Ninguém é feliz sendo feliz sempre. Queria terror a todo custo. Decidiu que faria algo terrivelmente terrível. E fez! Depois disso a única lembrança que teve foi das cortinas do quarto se fechando para sempre.
Universos
O universo é vasto. Tão imenso e grandioso que estes olhos, que a ti veem, não podem vê-lo por completo. O universo é tão completo que não podemos imaginar o que não há nele, pois nossa imaginação não é tão completa quanto ele. O universo é um gigante solitário por natureza, pois, no alto de sua grandeza, não a outro igual a si. Poderiamos imaginar várias e variantes coisas, poderiamos... porém nenhuma tal qual o universo. O universo é o que há de mais lindo e mais infinito dentro do que conhecemos. Ainda assim, esse gigante que vaga solitário pela imensidão não é do tamanho, nem da grandeza, do sentimento que tenho dentro de mim.
Das configurações
Num dia em que se sentia extremamente estafado, enquanto delirava sobre tudo o que não vivera, resolveu desconfigurar-se e apagar o próprio disco rígido. Nenhuma informação restou. Tornou-se outro na esperança de fazer o que não havia feito. Aconteceu, porém, que ao reinstalar-se, mesmo sem saber, continuou sendo o que era, pois o sistema era o mesmo. A diferença é que as "novas" informações eram mais doridas.
Esquecimento
Era d'um esquecimento sem precedentes, esquecia tudo. Tão esquecido que ao se afogar precisou pelo empuxo ser lembrado de que deveria boiar.
Um tal arrepio...
Andava pela rua deserta à meia-noite. Era lugubre. Tudo muito calmo, a luz serenando sobre o asfalto frígido. A lua escondida no tempo. Contornou a esquina, viu um vulto. Sintiu um calafrio percorrer os poros. Era a solidão. O medo lhe contorceu os cabelos. Correu até se encontrar com sua própria sombra!
O que não se pode ver...
Abri meus olhos para mundo, e era tudo marrom. Como minhas iris eram. Eram castanhos, quase apagados. Um dia os fechei. Prometi abrí-los no dia em que uma luz pudesse atravessá-los enquanto encorbertos por minhas pálpebras. Os olhos continuaram fechados por um longo tempo. Quando a luz apareceu eles não se abriam. As pálpebras haviam consumido os globos.
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