Desappear

Quarta-Feira, 25 de março de 2009. 22:56.

Há uma calma que eu ainda não alcancei; Eu gastei metade da vida imaginando o que viria em seguida; Eu usei o telescópio; Eu ganharei finalmente; Eu ganharei o prêmio finalmente que agora meus olhos vêem; Um gibi é o perfeito tempo comprimido; Eu sou o líder lutando com tudo; A força esmagadora da memória apagando tudo que eu fui; O ponto de sumiço aparece. DISAPPEAR - R.E.M.

O mundo sempre é pequeno quando não conseguimos nos esconder. Disperso e, ao mesmo tempo, me sinto convertido em um tipo de energia que atrai tudo que esta em volta. É estranho e complexo. Sou como um buraco negro: indefinido. Dou-me conta de que todos os dias acordo num universo totalmente alheio ao que vivo. As cortinas cor laranja. As lâmpadas dos postes atravessando o vidro da janela e a cortina. A sensação de estranhamento. Há sempre um vazio lá fora. Um espaço recheado de luzes sem vida! Luzes amarelas que ofuscam os olhos perdidos em meio à imensidão do nada e o céu escuro e sem estrelas.

Desapareço! Perco-me e não acho. Sento num dos degraus da escada e penetro a imagem de solidão que as telas naturais formam em minha mente. As pinturas são desbotadas! Através daquela cortina e janela está a vida cotidiana. Desapareço! Nas noites a solidão cobre o quarto escuro. A escuridão profunda e caótica ambienta-me ao mundo que jamais tive. O mundo jamais me teve. Ambos não existimos, pois a existência desaparece quando as luzes naturais se acendem a cada manhã.

Sonhos...

(Às margens da sanidade) Uma luz atravessava a fresta fria e crua da janela. Não eram raios de sol, como acontecia todas a manhãs de verão. O raio de sol atravessava as frestas da janela e aquecia a face mádida. Aquela luz, ao contrário, era alva e brilhava intensamente, sem, contudo, aquecer, como se... como se...? (não sabia dizer!) (Sonho) Sabia que estava sonhando, mas não entendia nada do sonho. A luz ofuscava os olhos, que agora tentavam se abrir. Entrevia-se uma silhueta, aforme. A silhueta escondeu a luz. A sombra então tomou forma. A forma linda e casta de uma mulher. (Metafísica) Mulher estava nua! Os cabelos serpenteavam os braços e o busto. Os lábios desnudos, os olhos firmes e penetrantes. Apenas a luz cobria aquele corpo. A própria luz - ou falta dela - que vestiam o corpo da mulher. A imagem divinal do corpo da mulher cintivala entre as trevas, que tentavam escondê-la. Os olhos, entretanto, já se haviam perdido há tempos naquela sagrada imagem. Podia, inclusive, ver a silhueta da mulher na retina, pois estava ali gravada. Muitas das coisas que tinham significado, não tinham mais. Outras ganharam significado. A existência se tornara necessária. E se soube, naquele momento que a existência de um homem se devia à uma mulher e que só por ela se chegaria a Deus. Nenhuma religião era tão poderosa quanto a ligação íntima havida entre dois corpos que se queimam no fogo da paixão. (o único segredo) Justos consigo são os que se cegam para verem, nas profundezas do mundo, a única beleza: A mulher. O mundo era tão insignificante, e ao mesmo tempo tão glorioso. Só sabem dessa verdade os que reconhecem a mulher como o tesouro mais precioso. E são nos modos, nos comportamentos, nas personalidades que vemos que elas são a única e verdadeira religão a qual se pode chegar plenamente a Deus. (loucura) Voltou do sonho renovado. Adepto de uma nova religião. A religião mulher. Olhava para as mulheres com extrema devoção. Como se os olhos lessem nas curvas e formas de das mulheres orações ou mantras tântricos. Extasiava-se ao olhá-las. Restaurou-se! (vida) Dali por diante, amou a todas as mulheres que existiam. Sucumbia à beleza delas, e as pagava com a mais pura e divinal paixão. Amou-as como ninguém, pois era o jeito mais fácil de se aproximar de Deus.

Flogose XCVI

Luis Fernando Verissimo disse:
"Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo o impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."

Flogose XCV

Tão fácil dizer algumas coisas, enquanto que outras encontramos dificuldade tamanha em proferí-las. Existem inúmeros subterfúgios e todos eles cabem exatamente na boca, quando outra coisa, mais necessária a ser dita, não sopra dos pulmões. Eu poderia facilmente dizer inúmeros pensamentos aqui, contudo não conseguiria proferir um que fosse tão íntimo a ponto de me trazer algo tipo de vergonha. Muitas vezes nos encontramos nestes becos. Nesses poços escuros e lamaçentos, e não há voz nenhuma que sopre de canto nenhum do mundo que nos fará pensar ou ajudar-nos-á a tomar uma decisão sensata sobre o que deveríamos realmente dizer. No contexto geral quanto mais importante é o que temos que dizer, menos facilidade tempos em dizer. Esses muros sem janelas já são meus recantos há tempos. Muros e muros. Nenhuma ponte, nenhum castelo, apenas um muro altíssimo! Tão alto quanto é profundo o oceano e tão vasto quanto o deserto do Saara. Cercar-me-ia de água, caso houvesse opção de fazê-lo. Devo falar, sim realmente devo, mas não falo. Se falo minto, se não falo minto. Tudo é mentira! A verdade está guardada dentro de um minúsculo átomo no cérebro e tão pequeno quanto este é o desejo de expor tal verdade, enquanto que tão grande quanto o universo é o desejo de ver-se livre deste átomo corrosivo. Importa-me dizer que algumas coisas inventadas, as vezes, soam com melhor timbre que a própria verdade. Os sinceros, convenhamos que não há benefícios em sê-lo, estão rotineiramente acometidos de algum mal que provém de sua boca, de sua fala. Falam e falam, costumeiramente, o que acham, pensam, o que lhes é verdade. Todavia ninguém bebe um copo de verdade por dia, pois o sabor é muito amargo, tanto para que cospe, quanto para quem engole! O sincero é todo aquele que ninguém gosta de tê-lo perto, a não ser que haja um benefício em tê-lo perto, ainda assim não gosta! Falaram-me, certa vez, que não convém omitir quando a postergação de um ato possa trazer prejuízos maiores, se forem derramados num futuro próximo. Vejo, contudo, que independente do momento em que bebamos da verdade o gosto será o mesmo e a dor estomacal será a mesma. É bem verdade que fatores externos podem intensificar as percepções e deixá-las muito maiores do que são, mas isso é relevante? Ser-nos-emos menos "malvados" se falarmos algo, não hoje, mas amanhã ou depois? Não, creio que independente do momento haverá sempre alguém para falar: - Agiste precipitada e nefastamente! É melhor não dizer. Sim, é sempre melhor não dizer! Em algumas coisas as pessoas não acreditarão quando a verdade for exposta e em outras se omitir uma mentira insistirão que você realmente fez, o que absolutamente não fez. Não há remédio para isso. E quando houver necessidade de promover justiça com a verdade, ainda assim é melhor omitir algumas coisas, pois haverá alguém que se sentirá lesado. Há meses que em minha cabeça habita um monstro sem face! E todos os dias esse monstro diz que tenho que fazer algumas coisas, mas tais coisas não parecem sensatas. Quer dizer, sensatas até que são, mas não seriam justas se eu indicasse alguns pressupostos que constituem os atos da peça inteira. Normalmente um personagem faz algumas coisas tentando não machucar as pessoas, mas sabemos bem que sempre machucam, ainda que não tenham intensão de fazê-lo. Eu não sou esse personagem! Sou o vilão. O lado negro da força. Hesito diante das conjunturas visando estruturar o terreno para a plantação e planto! E nascem muitas coisas, mas nada do que queria eu que nascessem. Aqui entra o segundo ato, ato este que constutiu acabar com a plantação (sou mesmo o vilão, não?). Creio que não há solução outra que não esta. Ser sincero é um vício que não tenho! Ademais não poderia ser sincero, pois isso é um defeito que traz problemas significantes para o contexto geral das relações. - Isso meu amigo, vá em frente e faça o que tem que fazer. Alguém sempre irá sofrer, talvez esse alguém seja você, tudo é possível! Gostaria de poder dizer isso sem que tais palavras causassem um certo temor ou ressentimento. Impossível, sinceridade e falta de temor são produtos que quase nunca se misturam e quando misturam coisa boa não sai. {Pensamentos e exemplos omitidos} Não minta, mas omita! A verdade é valiosa demais para ser a causa de sua ruína. {...}

Flogose XCIV

VERDADES.
A aliança Luis Fernando Verissimo Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro. Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las. — Você não sabe o que me aconteceu! — O quê? — Uma coisa incrível. — O quê? — Contando ninguém acredita. — Conta! — Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada? — Não. — Olhe. E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança. — O que aconteceu? E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo. — Que coisa - diria a mulher, calmamente. — Não é difícil de acreditar? — Não. É perfeitamente possível. — Pois é. Eu... — SEU CRETINO! — Meu bem... — Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria. — Mas, meu bem... — Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha! E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente: — Que fim levou a sua aliança? E ele disse: — Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei. Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam. — O mais importante é que você não mentiu pra mim. E foi tratar do jantar.
Esta é outra estória que não me causa estranheza. Há nela muita coerência com os fatos do mundo real. Isso acontece, e poderia dizer que existe frequência nos acontecimentos de tais situações. É melhor fazer assim que ser desacreditado na verdade contada, verdade esta que passará por mentira e acabará em maiores conflitos. A única verdade é que a verdade é complicada demais para ser dita, em algumas vezes.

Flogose XCIII

Pelas tantas da noite o cérebro começa a afundar-se em pensamentos e mais pensamentos, muitos deles vagos demais para se prender a eles, muitos outros sem o mínimo de comprometimento com o que se deve pensar, todavia são todos eles vagos todos os que vem à noites, já que a maioria se acompanha de sentimentos inutilizáveis. Não há muito que se possa fazer numa situação dessas. O melhor seria beber, mas como o álcool não apetece-me a mente, como faz o cigarro, melhor foi procurar dentre minha pequena biblioteca algo para se ler. Foi então que encontrei: A Verdade, que agora transcrevo.
“A verdade Luís Fernando Veríssimo. Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamantes ser levado pelas águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em sua casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancara o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margaridas. Os pais e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse: Agora me lembro, não era um homem, eram dois. E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse: – Então está com o terceiro! Pois se lembrava que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para o espanto dela. – Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida – gritaram os aldeões – Matem-no! – Espere! – gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca em seu pescoço – Eu não roubei o anel. Foi ela que me deu! E apontou a donzela, diante do escândalo de todos. O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel dizendo: “Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará o seu amor.” E ele sucumbira , pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra. Todos se viraram contra a donzela e gritaram: “Rameira! Impura! Diaba!” e exigiram o seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço. Antes de morrer, a donzela disse para o pescador: – A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade? E o pescador deu de ombros e disse: - A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.”
O interessante na estória é que ela própria é a mais pura verdade, pois normalmente omitimos ou mascaramos a verdade sob o subterfugio de que ninguém acreditará nela. As razões pela qual a omissão da verdade é mais valiosa que a verdade talvez se deva ao fato de que a verdade é muito mais simples do que deveria ser. Contemos a verdade e vejamos quem realmente acredita. Somos ensinados, quando crianças, que não devemos mentir, mas ninguém quer realmente saber a verdade. O que fazemos então?