Existência

Num átimo tornei-me teu; Cativou-me o olhar, cegou-me os sentidos; Fez-me novo, entre a explosão. Senti-me renascido; vencido; perdido... Caído em teus enleios de amor. Eu quem sou? Eu quem? Sou o fogo que arde em tua voz, e a voz que ecoa em tua alma. Tua alma ardente, e a ardência que és tu. Sou tudo que tu és, e sem ti nada sou. Sem ti nada é, sem ti nada existe!

As horas

Eram as horas que o incomodavam. Eram aqueles ponteiros e aqueles barulhos. Era o tempo e as lunações. O grande e imaterial tempo, principalmente. Ele - mais do que qualquer outra pessoa - se sentia um prisioneiro do tempo. Sentia medo daquele sentimento do movimento de um corpo em relação a outro. Era como se a quarta dimensão fosse um monstro, e para ele não deixava de ser. Pavoroso! Pensou em fugir para uma quinta dimensão ou, simplesmente, anular a quarta e ficar com as três que tanto apreciava. Era impossível. O tic-tac eram duas marteladas consecutivas em sua existência. Resolveu, porém, entender o tempo como uma ilusão, assim o fez. Continuava sendo medonho, porém o medo advinha do fictício. A única coisa que ele desconhecia era que os seus batimentos cardíacos desafiavam a ilusão, pois batiam um silêncioso e mortal tic-tac.

Pedaços

Por quê não podemos, simplesmente, guardar uns sentimentos no bolso para usá-los quando quisermos? Usá-los de forma desmedida e desmoderada? Ter o poder, por exemplo, de dar amor a quem temos ódio mortal. Dar carinho a quem precisa de carinho. Oferecer, a quem sempre pede, orgulho. Ternura... Seria bom? Ruim? Essa miscelânea de sentimentos é o que nos faz humanos? Será? Eu, no fim das contas, queria ter um bolso. Dobraria cada sentimento e guardaria nele para usá-los de forma mais racional. Para testar cada sentimento! Por que, sendo humano, a única coisa que aprendi foi a deteriorar. Hoje faço isso bem, deterioro tudo, inclusive sentimentos!

Curiosidade!

A curiosidade é um defeito. Um péssimo defeito, cujo maior atributo é a ânsia de matar a própria curiosidade. Esse era o mal de Carlos. Homem demasiadamente virtuoso, contudo de uma curiosidade estratosférica. Daqueles que não se aquietava enquanto não matava a curiosidade. Tão curioso, que ao lhe sussurrarem sobre um acidente terrivelmente trágico, foi em sua procura. Para a supresa de Carlos o acidente - trágico, terrível e letal - da qual foi a procura era o seu próprio.

As cortinas

Era como descortinar um passado sombrio, e enterrar as memórias faustas. Ele só queria um pouco de terror em sua vida, já que a felicidade era tudo que tinha desde que tinha vida. Felicidade era um mal necessário, dizia. E para quê? Ninguém é feliz sendo feliz sempre. Queria terror a todo custo. Decidiu que faria algo terrivelmente terrível. E fez! Depois disso a única lembrança que teve foi das cortinas do quarto se fechando para sempre.

Universos

O universo é vasto. Tão imenso e grandioso que estes olhos, que a ti veem, não podem vê-lo por completo. O universo é tão completo que não podemos imaginar o que não há nele, pois nossa imaginação não é tão completa quanto ele. O universo é um gigante solitário por natureza, pois, no alto de sua grandeza, não a outro igual a si. Poderiamos imaginar várias e variantes coisas, poderiamos... porém nenhuma tal qual o universo. O universo é o que há de mais lindo e mais infinito dentro do que conhecemos. Ainda assim, esse gigante que vaga solitário pela imensidão não é do tamanho, nem da grandeza, do sentimento que tenho dentro de mim.

Das configurações

Num dia em que se sentia extremamente estafado, enquanto delirava sobre tudo o que não vivera, resolveu desconfigurar-se e apagar o próprio disco rígido. Nenhuma informação restou. Tornou-se outro na esperança de fazer o que não havia feito. Aconteceu, porém, que ao reinstalar-se, mesmo sem saber, continuou sendo o que era, pois o sistema era o mesmo. A diferença é que as "novas" informações eram mais doridas.