O que não se pode ver...

Abri meus olhos para mundo, e era tudo marrom. Como minhas iris eram. Eram castanhos, quase apagados. Um dia os fechei. Prometi abrí-los no dia em que uma luz pudesse atravessá-los enquanto encorbertos por minhas pálpebras. Os olhos continuaram fechados por um longo tempo. Quando a luz apareceu eles não se abriam. As pálpebras haviam consumido os globos.

Momentos

Há momentos da nossa vida que ficam para a eternidade, por que nos fazem extremamente felizes. Há momento da nossa vida que nos ensinam quem são nossos amigos. Há momentos da nossa vida que nos ensinam em quem confiar. Há momentos na qual descobrimos quem realmente se importa com a gente. Há momentos que nos fazem querer parar no tempo. Há momentos em que pedimos a Deus que o tempo passe mais rápido. Há momentos em que tudo o que precisamos é ficarmos sozinhos, com uma boa companhia. Há momentos da nossa vida em que nada importa. Há momentos em que podemos facilmente chorar e sorrir, sem motivos. Há momentos em que a vida é mais que uma simples Vida, e ainda assim não nos sentimos satisfeitos. Há momentos em que a perfeição isola, e as coisas parecem boas demais para acreditarmos. Há momentos que ninguém entende, que ninguém vive plenamente. Há momentos que só a adrenalina explica, e só o vento no rosto ruborizado pelo sol importa. Há momentos em que as estrelas no céu, e cheiro quente do mar enternece a alma. Há momentos em nossa vida que não precisamos do perfeito, pois é no imperfeito que está o que mais desejamos. Há momentos que um sorriso muda o mundo, e mundo se torna um lugar habitável. Há momentos em que lutar não importa, só importa se importar. Há momentos na qual só o silêncio sabe nos dizer o que precisamos ouvir. Há momentos em que um abraço nos faz voltar à vida. Há momentos inexplicáveis de pura intensidade. Há momentos simplesmente inexplicáveis. Há momentos e momentos. E, em todos eles, há pessoas com a qual planejamos estar. Para todos os momentos, todos, há sempre um alguém. Há sempre um lugar. Há sempre um momento que o próprio momento não quer explicar.

A vida complexa dos azulejos

Sentado no canto inóspito e hermético de um quarto vazio e sombrio, enquanto subtraia das sombras os raios mais fulgidos, perguntava ao azulejos encardidos se era isso o que eles queriam ser. Ante a ausência de resposta, entendia-se que eles eram indiferentes à natureza de sua existência. Eles faziam, e apenas faziam, o que tinham sido programados pra fazer. Era tão estranho ver que eles não podiam ser mais nada, que não tentavam ser mais nada. Como se entregavam àquela natureza obscura e trágica da qual lhes haviam dito ser suas. Os azulejos se conformaram com a vida que tinham. Talvez não tenha sido sempre assim, talvez, e apenas talvez, já tenham tido vontade de lutar para serem outras coisas, todavia hoje eram só azulejos encardidos. E pareciam não se importar, por que só essa natureza, forçada e morta, lhes fazia sentir como que confortáveis. E ele, que não sabia quem era, se perguntava por que ser azulejo era tão difícil, tão complicado. Ele percebeu que os azulejos não respondem. Eles apenas mostram o que são, e os outros que copiem, caso queiram, sua esquadria.

Daquilo que se perde sem querer...

Sem querer, a gente perde coisas da qual demoramos muito tempo para conquistar, adquirir ou construir. Por quê? Parece-me, geralmente, que ao darmos muito valor à própria coisa, esquecemos de valorizar o que a envolve. Tudo que envolve a coisa é tão [ou mais] importante que a própria coisa. Dessa forma, olvidamos o contexto e as relações transitórias de relevância para a coisa, e [por nossa total e exclusiva culpa] perdemos essa coisa; Lamentar nessa situação não me parece ser de grande alívio, nem tampouco uma distração para a nossa infelicidade. Ao perder a coisa ela parece que se intensifica em nós, porém não é coisa em si que está nós. É, apenas, uma lembrança dela. É como que reescrever o que se apagou, e imaginar que é a mesma coisa que se havia escrito antes. Não é. Jamais será!

Daquilo que não se conquista

Há ideais que nascem fadados ao engano. Nascem, apenas nascem. Germinam ninguém sabe como e prevalecem nos mais inóspitos ambientes jamais vistos. Como se - de uma forma totalmente alheia à sua própria natureza - tivesse que sobreviver do que não se sobrevive. Tirando alimento do silêncio, da falta, do que se não tem... Eis o próprio Silêncio e Ausência interior! Há coisas que não se conquista, por mais que se lute uma vida toda por ela, e tudo aquilo que não se pode conquistar deve ser apenas mais um degrau de uma escada sem degrais.

Antecedentes

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.
[Manoel Bandeira]

Eu que já tanto disse, hoje, contudo, engulo minhas amargas palavras. Elas possuem o gosto do fel! Falo, mas tu não me ouve. Não me escreve. Não me lê. O que foi que eu fiz? O que foi que não fiz?

Não é como antes que não me ouvia, apenas para não se lembrar que minhas palavras não tinham importância alguma. Agora é tudo diferente, indiferente. Faço-me em rasgados verbos, mas nenhuma conjugação te impressiona. Nada te impulsiona, nada te agrada, nada!

O que foi que eu fiz?
Hoje sei. Quis conhecer-te, quando um alguém não mais quisera!

Cortinas

Acordo, pela manhã.
Levanto-me, com cuidado.
Deslizo até a janela,
descortino-a, e vejo.
Vejo o sobejo rio,
e rio.
Solitário,
a vasta ingênuadade
que me escapa,
quando se fecham
as cortinas.