Flogose LXXXII

O que é música? De onde ela vem? Para onde ela leva? são perguntas recorrentes que em vezes vem e vão da mente. É como pensar no infinito. Nietzsche disse que:
Sem a música, a vida seria um erro!
E não falta razão ao seu pensamento. As vezes penso na música como qualquer manifestação que está para além do silêncio. Outras vezes o próprio silêncio é a melhor música. A música transcende, como já dizia Marcel Proust:
A música pode ser o exemplo único do que poderia ter sido - se não tivesse havido a invenção da linguagem, a formação das palavras, a análise das ideias - a comunicação das almas.
A música é muito mais que uma expressão de arte. É paixão e Nietzsche sabia bem disso, tanto sabia que disse:
A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas!
Talvez seja até mais que expressão de paixão ou paixão pura, seja algo de alma mesmo como disse Proust. Há música em tudo e em tudo há música. As músicas são emanadas das mais diferentes e inconcebíveis formas, mas é necessário aptidão para apreciá-la. Uma aptidão que vem inclusive das virtudes de cada um. Alguns talvez digam que saibam como cultivar música, mas o mesmo talvez vem para contestar essa hipótese, já que, como disse Confúcio:
Como é que um homem sem as virtudes que lhe são próprias pode cultivar a música?
Eu sinceramente não como! As virtudes fazem parte do processo. É como dizer que conseguir-se-á cultivar flores sem sol, sem água ou sem terra. Há propriedades nas virtudes dos homens que ajudam-nos a entrar em contato íntimo com a música. A música é algo formidável, pois
"A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende"
disse Schopenhauer. É além de tudo uma leveza da alma e do espírito. Complementando a música é de tal forma apoteótica que transcende, inclusive, a si mesma. Beethoven não me deixa mentir dizendo:
A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia!
Eu diria, num modo um tanto mais grosseiro, que a música é a poesia assoviada, mas pela alma! Contudo, sinto dizer que a música não é para todos e é Beethoven quem diz:
Milhares de pessoas cultivam a música; poucas porém têm a revelação dessa grande arte
. No entanto a música é manifesto que é ouvido desde o primeiro choro de vida. O próprio choro é uma música que alegra muito. Ernst Hoffmann dizia que:
A música começa onde acaba a fala
, mas talvez, creio, seja mais que isto. A música começa também quando o som acaba. Há música inclusive onde não há som. Músicas que não são ouvidas, mas puramente sentidas pela alma. A música, em si, expressa a vida. Expressa o mundo e suas matizes de forma que:
Pouco importam as notas na música, o que conta são as sensações produzidas por elas
já dizia Leonid Pervomaisky. A música é muita coisa.
Não seria a música uma língua perdida, da qual esquecemos o sentido e conservamos apenas a harmônia?
como disse Massimo Azeglio. A música é o modo de colocar, as vezes, para fora o que escondemos de nós mesmos. Existem músicas e músicas, melodias e melodias, acordes, notas... Existe expressão e atividade. Comunhão de sentimentos e paz. A música, em vezes, é o amor choroso em notas tristes, em vezes é ódio bufante em acordes distorcidos. É calmaria e serenidade. É chuva e sol. É água e vinho. É o grito de ajuda ou o agradecimento pela conquista. É história e é também geografia. É matematica, pura matematica. A música é paixão, é cura da solidão. É o tempo, enquanto a distância maltrata. A música é a vida! Apenas a vida. Por fim,
Quem entender a minha música nunca mais será infeliz.
disse Beethoven. Alguma razão assiste-lhe, pois sua música cura muitos males, aos que entendem-a. "Modesto" foi este gênio talvez ao dizer isso, diante de tantas outras músicas. Contudo, os que a entenderam... souberam que havia alma dentro de cada nota e esta alma traz consigo muita serenidade. Muitos já falaram sobre música, muitos outros falarão ou se expressarão em suas próprias instrospecções sobre o que ela representa, mas no fundo a todos descobrirão que a música é caminho para o mundo, o mundo da alma.

Flogose LXXXI

As noites são umas coisas incríveis. Elas nos fazem pensar (pelo menos em mim tem esse efeito) de um modo tão inconstante que facilita à inspiração. Numa destas noites, enquanto lia Florbela Espanca, me peguei pensando e resolvi escrever. Não foi algo tão natural, pois tive ajuda de uma fada inspiradora, que fez desabrochar as rosas cálidas das minhas inspirações. Pensar na vida não parece (não é!) nada fácil. Escrever sobre a vida é algo bem mais difícil, pois remete a muitas coisas e parece que o cérebro não quer parar de contextulizar coisas e coisas. O que é a vida? Eu não sei! Nem vou tentar responder, já isso está muito além do que preciso saber para viver. E é bem mais fácil viver, que tentar entender o que chamamos vida. Mas a vida é um presente e deve ser vivida como e no presente, pois do contrário se perde muito! Há dias díficil, mas isso acontece com todos... De príncipes a miseráveis, cada um no seu contexto, embora aconteça mesmo. Assim pensei sobre isso de vida e saiu: Vida
"E ser-se novo é ter-se o Paraíso É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, Aonde tudo é luz e graça e riso!" (Florbela Espanca)
(---) Que saudade! Que vida sofrida. Ser-se novo é ter-se o mundo É ter-se o encanto de uma vida. E tão logo, logo me confundo Se vivo muito, muito vivo contente! Se morro, não choro, sou infecundo. - A vida é bela, diz o confitente E sorri alegremente por descobrir Que é também um expoente. E a vida é um grandioso sorrir! Uma valsa de três notas em harmônia... Uma diz nasça, outra viva: vá sentir... A última nota é ponto, extrema algia! Mas só vivendo é que se aprende A dar importância à vida, à alegria. E chora a carola, tão mais fremente Do que chora a criança recém-nascida Aquela por conhecer, um incidente... Um incidente que chamamos partida... E esta chora, junto à mãe, por conhecer O incidente a que chamamos vida.
A vida é algo sem preço. Alguns dizem que o Diabo compra, disso eu não sei, mas sei que se está vivo tem que viver e se tem que viver viva da melhor forma, pois a morte nos puxa, com sua corda chamada tempo, a cada dia que passa.

Flogose LXXX

Reconstrução Uma reconstrução é uma obra delicada... Constrói-se o que já foi um dia construído Restaura-se. Corrigi-se. O todo, o esquecido. Uma reconstrução é uma obra, uma jornada. Uma reconstrução carece de amor e respeito Carece mais de compreensão com a identidade... Para conseguirmos reconstituir toda a saudade Que ficou naquele passado guardada no peito. Uma reconstrução é obra árdua, é reconstrução... E depende, muito mais, do nosso profundo querer Que apenas e simplismente da necessidade. E principalmente da ajuda dos que nos dá a mão. Uma reconstrução dá ao edifícil nova vida, novo amor! É por isso que quando há fazemos com devoção Com parcerias, com ajudantes e com muita paixão Não há futuro que derrube o que se eriçou com ardor. Uma reconstrução é obra-prima. É alma, é graça... Pois nela há o que há de mais precioso no reconstrutor Há um pedaço do coração que queima em calor Por dar sopro ao que um dia perdeu-se pela caça. Uma reconstrução é o conjunto de verbos do carinho É um querer mais que estar sozinho, é uma vidraça que se quebrou, uma porta que no tempo se despedaça É uma nova vida, uma obra nova... Um novo ninho.

Flogose LXXVIII

Parece que existem pessoas ou momentos com determinadas pessoas que servem para nos testar. São testes crueis, testes que parecem nos enfraquecer de tal modo que queremos desistir. Queremos deixar tudo pra tras e esquecer que aquilo existiu. Contudo, o que tem que ocorrer é o contrário, pois quando alguém diz que você não pode ou não consegue fazer alguma coisa, você tem que lutar e mostrar que ele está errado, porquê é assim que você mostra o seu valor como pessoa e como ser humano. E existirão muitas pessoas que dirão que você não pode, que não consegue durante sua vida, e nesta hora é que tem que arrumar forças e traduzir essa falta de crença em conquistas!

Flogose LXXVII

Às vezes a vida é mais estranha que um sonho. E a única maneira de acordar é enfrentar as mentiras que estão escondidas na alma. E você só pode torcer para que nesses momentos de reflexões obscuras você não esteja só. (A.D.)

Flogose LXXVI

Shekespeare disse:
" Amor não é amor que se altera quando encontra alteração ou uma marca rígida que aparece numa tempestade e nunca se abala. Amor não se transforma de hora em hora. Mas surge mesmo à beira da morte."
Lembrei-me de Olavo Bilac e uma poesia sua de extrema beleza. Contudo, o que me atriu na poesia não foram apenas as palavras belas e significativas, mas o amor profundo que parece atravessar as fronteiras. O amor, aparentemente, é assim! Ou melhor, o amor não abala e suporta as piores tempestades sejam elas quais forem.
A Alvorada do Amor por Olavo Bilac Um horror grande e mudo, um silêncio profundo No dia do Pecado amortalhava o mundo. E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo, Disse: "Chega-te a mim! entra no meu amor, E à minha carne entrega a tua carne em flor! Preme contra o meu peito o teu seio agitado, E aprende a amar o Amor, renovando o pecado! Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto, Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto! Vê! tudo nos repele! a toda a criação Sacode o mesmo horror e a mesma indignação... A cólera de Deus torce as árvores, cresta Como um tufão de fogo o seio da floresta, Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios; As estrelas estão cheias de calefrios; Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu... Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu, Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos! Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos; Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos; Surjam feras a uivar de todos os caminhos; E, vendo-te a sangrar das urzes através, Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés... Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto, Ilumina o degredo e perfuma o deserto! Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido, Levo tudo, levando o teu corpo querido! Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar: - Tudo renascerá cantando ao teu olhar, Tudo, mares e céus, árvores e montanhas, Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas! Rosas te brotarão da boca, se cantares! Rios te correrão dos olhos, se chorares! E se, em torno ao teu corpo encantador e nu, Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu, Agora que és mulher, agora que pecaste! Ah! bendito o momento em que me revelaste O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime! Porque, livre de Deus, redimido e sublime, Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus, - Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!"
O ato de errar é humano! E quando existe amor, um amor profundo, o errar é irrelevante, pois é mais facilmente reconhecível e o errar se torna mais humano ainda. O que seria do amor se as pessoas não pudessem perdoar umas às outras? Um veleidade, creio.