Noites

Suspeito dessas noites de calmaria. Elas costumam esconder o que há de mais profundo no mundo. Um tic-tac soa levemente, mas ninguém percebe. A lua passeia. A vento sopra gélido. As trevas cobrem as camas daqueles que pensam dormir ilesos. Os corvos pousam nos ipês amarelos. Os sonhos desaparecem, e por algumas horas a vida também.

Schopenhauer, amor e Los Hermanos


Enquanto ouço Los Hermanos (Bloco do eu sozinho) leio Schopenhauer, em sua tarefa de falar sobre o amor. O tema, como é sabido, não é muito explorado pela filosofia, normalmente a música, os poetas e os romancistas são dados a essa tarefa. Schopenhauer, contudo, explorou o que chamamos de amor, e o fez com muita propriedade. Para ele o amor era a natureza agindo para perpetuar a espécie. (Bem diferente desse amor que conhecemos, né?). Para ele o amor era o  “impulso de vida”. Ele teorizou que “nada na vida é mais importante que o amor, porque o que está em jogo é a sobrevivência da espécie”. Isso por que o amor é uma tática da natureza para nos levar a ter filhos.

Não é difícil acreditar nisso, até por que não sabemos muito bem como surge esse tal amor. As pessoas se apaixonas umas pelas outras, mas não entendem o porquê de terem se apaixonado especificamente por aquela pessoa, dentre tantas outras opções. Schopenhauer pensou nisso: a paixão nasce por uma pessoa quando sentimos, de forma inconscientemente, que ela pode nos dar herdeiros saudáveis.

Seria o amor esse tal "impulso de vida" da qual falava Schopenhauer? Ou simplesmente não existe amor e o que temos é a natureza agindo para contribuir com o perpetuamento saudável da espécie? Não há dúvidas de que essa teoria se aplica aos outros animais, isso por que, ao que sabemos, eles sempre buscam os mais aptos a darem crias saudáveis e fortes.

Evidências existem de que essa teoria se aplica a nós. Podemos considerar, principalmente, o fato de que a paixão e o interesse sexual estão intimamente ligados. A paixão, normalmente, nasce de impulsos ligados à sexualidade. Não seria, nesse caso, a natureza nos dizendo que aquela pessoa poderia nos dar herdeiros saudáveis? Parece-me que o instinto de subsistência tem sim participação profunda nessa questão apresentada por Schopenhauer. Nessa situação o amor seria apenas uma armadilha que a natureza criar para as espécies humanas buscarem parceiros com características ideais para procriarem herdeiros saudáveis.

Por fim, ele diz que a felicidade não está em questão. A natureza age com intuito de perpetuar a espécie, nada além disso.

Continuo ouvindo Los Hermanos, e tentando entender por que o amor moderno é um fruto tão precioso do capitalismo. Sim, capitalismo. Embora pareçam ideias tão distantes. O capitalismo, penso eu, tem utilizado do amor para construir um império de enriquecimento. Vende-se muito, simplesmente isso. A partir do momento que perceberam que o amor vendia, eles simplesmente transforam-no em algo irreal e inalcançável. Transformaram-no em felicidade plena, embora no mundo real nada disse seja verdadeiro.

O que é o amor, afinal? Ele existe? É uma brincadeira da natureza ou simplesmente um produto? Enquanto não consigo responder essas perguntas, vou continuar ouvindo Los Hermanos.

Era uma vez na ditadura...

No primeiro, e talvez o único, dia da ditadura de um pequeno país, cuja localização não se sabe ao certo. Um homem anda assustado pelas ruas. Há um negrume fundo no lugar dos olhos esbugalhados. Os lábios tremem. As mãos suam. O sangue circula pelas pernas, e ele quer correr violentamente até a solidão, mas se retém. Não olha pra ninguém, porém impõe-se atenção a todo custo. Anda apressado e sem se preocupar com coisa alguma. Um homem de terno preto e óculos escuros parece lhe seguir. A vontade de correr é insuportável. Olha de soslaio para verificar se está sendo seguido, e parece estar. O homem de terno preto e óculo grita alguma coisa. Ele simplesmente começa a correr verificando, com frequência, se continua sendo seguido, e não consegue ouvir nada. O homem de terno preto e óculos corre também – e grita –, mas é tarde. O homem foi atropelado por um caminhão, e a última coisa que ouviu foi o homem de terno preto e óculos dizendo, enquanto segurava um objeto preto na mão:
- Senhor, o Senhor deixou cair sua carteira!

O lugar

Poderia estar em qualquer lugar, mas resolveu se instalar numa cidade quase medieval do sul do Brasil. Passava a maior parte de suas horas observando a natureza, escrevendo e lendo poesias francesas do século XVIII. Levava sua vida com recursos parcos. Não dispunha de qualidade de vida, mas se tratava do lugar que escolhera para passar a vida. O lugar porém não retribuiu. Nas poucas horas que ficou ali sofreu tudo o que não sofrera em toda a sua vida. Todos pareciam bem, exceto ele. Não era bem-vindo, mas pretendia ficar. Após pouco mais de seis horas no lugar estava morto. Antes disso, entretanto, sofrera com insetos, frio, calor, terremotos, inundações, etc. Nada o fez sair. Foi uma simples queda que o fez partir. Quedou-se e uma pedra - que apareceu repentinamente - atacou sua cabeça violentamente, sem tempo sequer pra sentir dor. Não era bem-vindo. Realmente não era. Assim que constatada sua morte, começaram a aparecer formigas de todos os cantos. Começaram a agrupar-se em torno do corpo inerte. Eram centenas de milhares de formigas. Elas ergueram o corpo e o carregaram até o limite da cidade. Do corpo não se sabe. As formigas, entretanto, voltaram para o seu lar. Pelo modo como andavam era possível notar que elas sentiam que haviam cumprido a missão.

Inerte

Eu passo pelo tempo. O tempo me permeia. Sempre acho que eu sou o sol desta relação, mas não sou. Sou estagnação!

Bohemian Rhapsody

Ouvia Bohemian Rhapsody quando alguém bateu a porta. Olhou pelo olho mágico e não viu ninguém. Abriu a porta. Saiu. Andou uns dois metros. Olhou para a direita. Apagou. A trilha sonora terrível. Enquanto Freddy vociferava: Mama, just killed a man. Put a gun against his head. Pulled my trigger, now he's dead o sangue começou a descer fumegante por um buraco na cabeça.

Ninguém soube explicar a morte, mas muitos diziam que ele morreu tentando dar vida à música da sua banda favorita.

Estrada

Há sempre uma estrada a seguir;
Quando nascemos entramos nela,
Percorremos a auto-estrada, a viela;
Em bom estado, em tempo de ruir;
A estrada é sempre cheia de mistério,
seja a que leva ao céu ou ao cemitério.

O movimento da estrada é desigual,
num dia de sol pode ser inundada,
num dia de chuva apenas estrada,
é movimento intenso ou anormal.
A estrada é um caminho crescente,
que carrega o sonho de toda gente.

Nem sempre a estrada é um caminho,
podemos andar por ela e nada ver,
viver por ela sem ao menos perceber,
que a estrada é para estar sozinho.
A estrada é para estar e para ser,
e não para simplesmente entender.

Vejo estradas vazias,
Vejo estradas movimentadas,
Vejo a vida nessas estradas,
Vejo a estrada e não o caminho.
Vejo o meu andar,
Vejo o meu eu sozinho.
Vejo o meu sem lar,
Vejo a estrada sem destino!

Minha estrada é o meu caminho,
quer eu a seja, quer eu sozinho!