O garçom

Essa é a estória do garçom que não foi trabalhar; e que bêbado caiu logo no bar; onde justamente trabalhava; embora dinheiro muito não ganhasse; costumava ter muita classe; com o povo que por lá rodava;

Deparou-se – o garçom – com um chato home; que dessabido o nome; falava-lhe de sua dor; cornuda dor de amor; a qual havia sofrido; e lembrou-se daquele homem pelo ouvido; o chato corno que chorava a mulher no bar travessão; corno maior só mesmo o Tião; que saia pro outro entrar; isso tudo conversa de bar; mas o garçom arredio; olhou o homem num arrepio; e neste hora se zangou; e – sem muitas delongas – ao home falou; na batida do frevo; o que agora transcrevo:

A vida é um ciclo estranho
Ontem eu penico era;
Ouvia tudo; Dispusera
A ser ouvinte, sem ganho!

Vós com Vossas estórias cornudas;
A cachaça a varrer o chão;
E eu vos vendo feito truão,
Chorar dores das mais ossudas;

Hoje não me importa tua desgraça;
Bebe, ô pulha dos infernos,
Estes que são dissabores eternos,
No gole frio e queimante da cachaça;

E digo mais: ô saco de estrume,
Tu és um merda de um corno,
E não há álcool a tal transtorno
Nem que lhe diminua o volume.

E melhor que tenha muito cuidado,
Por que nessas veredas sombrias,
Aos cifres não se deve ter apatias,
Pois quem não é corno, é veado.

E como puta não é vosso fado,
Pois a anatomia não quis assim,
É melhor ser corno, por fim,
Do que lhe condenarem veado.

Sabe mais o quê, ô chumbado,
Grande amor é ter na veia,
O que no mundo tem de areia,
Pra conquistar qualquer olhado.

Agora que tudo está bem falado;
Tua lamuria não é minha obrigação,
Nem farei cera a tua podridão,
Já que a fortuna tua é ser galhado.

Digo-lhe, por fim, ô bebum coitado
Não de ouvido a esta alma pobre
Por que pra garçom ninguém é nobre
E em boteco só dá corno, puta e veado.

Como não havia mais o que falar; o garçom, sem muito cuidado; procurou pelo próximo coitado; a quem iria esculhambar; e, como sorte de pobre dura pouco; o outro foi o maior sufoco; pois não em corno não se fazia; Era, tão só, uma baita de uma tia; com pé de grandalhão; e o menor não foi o supetão; que levou o pobre garçom; e como a sina de pobre não dá arrego; o homem pobre, bêbedo e garçom perdeu o diabo do emprego.

Coincidência

Estranho como as coincidências parecem nutrir nossa vida. A relevância destas coincidências não parecem fazer diferença no instante em que acontecem, mas, depois de muito tempo, começamos a entender como funcionam. E só nos resta lembranças. As coincidências são lembranças - de certo modo - que insistem em acontecer, quando não esperamos que aconteçam. E só entendemos por quê aconteceram depois de algum tempo. Tenho tentado coincidir as coisas que estão acontecendo em minha vida. Fazer delas situações de conforto e direcioná-las à um tipo de progressão geométrica evolutiva da minha espécie. O importante é seguir o fluxo, pois ir contra ele é marcar-se de inúmeras chagas, cegar-se e desentender o entendido. E as pedras? Essas pedras dos caminhos, não serão pedras! Mas degrais que nos farão elevar quando delas utilizarmos. São as coincidências que movem a vida, pois a própria vida é uma coincidência!

Desappear

Quarta-Feira, 25 de março de 2009. 22:56.

Há uma calma que eu ainda não alcancei; Eu gastei metade da vida imaginando o que viria em seguida; Eu usei o telescópio; Eu ganharei finalmente; Eu ganharei o prêmio finalmente que agora meus olhos vêem; Um gibi é o perfeito tempo comprimido; Eu sou o líder lutando com tudo; A força esmagadora da memória apagando tudo que eu fui; O ponto de sumiço aparece. DISAPPEAR - R.E.M.

O mundo sempre é pequeno quando não conseguimos nos esconder. Disperso e, ao mesmo tempo, me sinto convertido em um tipo de energia que atrai tudo que esta em volta. É estranho e complexo. Sou como um buraco negro: indefinido. Dou-me conta de que todos os dias acordo num universo totalmente alheio ao que vivo. As cortinas cor laranja. As lâmpadas dos postes atravessando o vidro da janela e a cortina. A sensação de estranhamento. Há sempre um vazio lá fora. Um espaço recheado de luzes sem vida! Luzes amarelas que ofuscam os olhos perdidos em meio à imensidão do nada e o céu escuro e sem estrelas.

Desapareço! Perco-me e não acho. Sento num dos degraus da escada e penetro a imagem de solidão que as telas naturais formam em minha mente. As pinturas são desbotadas! Através daquela cortina e janela está a vida cotidiana. Desapareço! Nas noites a solidão cobre o quarto escuro. A escuridão profunda e caótica ambienta-me ao mundo que jamais tive. O mundo jamais me teve. Ambos não existimos, pois a existência desaparece quando as luzes naturais se acendem a cada manhã.

Sonhos...

(Às margens da sanidade) Uma luz atravessava a fresta fria e crua da janela. Não eram raios de sol, como acontecia todas a manhãs de verão. O raio de sol atravessava as frestas da janela e aquecia a face mádida. Aquela luz, ao contrário, era alva e brilhava intensamente, sem, contudo, aquecer, como se... como se...? (não sabia dizer!) (Sonho) Sabia que estava sonhando, mas não entendia nada do sonho. A luz ofuscava os olhos, que agora tentavam se abrir. Entrevia-se uma silhueta, aforme. A silhueta escondeu a luz. A sombra então tomou forma. A forma linda e casta de uma mulher. (Metafísica) Mulher estava nua! Os cabelos serpenteavam os braços e o busto. Os lábios desnudos, os olhos firmes e penetrantes. Apenas a luz cobria aquele corpo. A própria luz - ou falta dela - que vestiam o corpo da mulher. A imagem divinal do corpo da mulher cintivala entre as trevas, que tentavam escondê-la. Os olhos, entretanto, já se haviam perdido há tempos naquela sagrada imagem. Podia, inclusive, ver a silhueta da mulher na retina, pois estava ali gravada. Muitas das coisas que tinham significado, não tinham mais. Outras ganharam significado. A existência se tornara necessária. E se soube, naquele momento que a existência de um homem se devia à uma mulher e que só por ela se chegaria a Deus. Nenhuma religião era tão poderosa quanto a ligação íntima havida entre dois corpos que se queimam no fogo da paixão. (o único segredo) Justos consigo são os que se cegam para verem, nas profundezas do mundo, a única beleza: A mulher. O mundo era tão insignificante, e ao mesmo tempo tão glorioso. Só sabem dessa verdade os que reconhecem a mulher como o tesouro mais precioso. E são nos modos, nos comportamentos, nas personalidades que vemos que elas são a única e verdadeira religão a qual se pode chegar plenamente a Deus. (loucura) Voltou do sonho renovado. Adepto de uma nova religião. A religião mulher. Olhava para as mulheres com extrema devoção. Como se os olhos lessem nas curvas e formas de das mulheres orações ou mantras tântricos. Extasiava-se ao olhá-las. Restaurou-se! (vida) Dali por diante, amou a todas as mulheres que existiam. Sucumbia à beleza delas, e as pagava com a mais pura e divinal paixão. Amou-as como ninguém, pois era o jeito mais fácil de se aproximar de Deus.

Flogose XCVI

Luis Fernando Verissimo disse:
"Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo o impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."

Flogose XCV

Tão fácil dizer algumas coisas, enquanto que outras encontramos dificuldade tamanha em proferí-las. Existem inúmeros subterfúgios e todos eles cabem exatamente na boca, quando outra coisa, mais necessária a ser dita, não sopra dos pulmões. Eu poderia facilmente dizer inúmeros pensamentos aqui, contudo não conseguiria proferir um que fosse tão íntimo a ponto de me trazer algo tipo de vergonha. Muitas vezes nos encontramos nestes becos. Nesses poços escuros e lamaçentos, e não há voz nenhuma que sopre de canto nenhum do mundo que nos fará pensar ou ajudar-nos-á a tomar uma decisão sensata sobre o que deveríamos realmente dizer. No contexto geral quanto mais importante é o que temos que dizer, menos facilidade tempos em dizer. Esses muros sem janelas já são meus recantos há tempos. Muros e muros. Nenhuma ponte, nenhum castelo, apenas um muro altíssimo! Tão alto quanto é profundo o oceano e tão vasto quanto o deserto do Saara. Cercar-me-ia de água, caso houvesse opção de fazê-lo. Devo falar, sim realmente devo, mas não falo. Se falo minto, se não falo minto. Tudo é mentira! A verdade está guardada dentro de um minúsculo átomo no cérebro e tão pequeno quanto este é o desejo de expor tal verdade, enquanto que tão grande quanto o universo é o desejo de ver-se livre deste átomo corrosivo. Importa-me dizer que algumas coisas inventadas, as vezes, soam com melhor timbre que a própria verdade. Os sinceros, convenhamos que não há benefícios em sê-lo, estão rotineiramente acometidos de algum mal que provém de sua boca, de sua fala. Falam e falam, costumeiramente, o que acham, pensam, o que lhes é verdade. Todavia ninguém bebe um copo de verdade por dia, pois o sabor é muito amargo, tanto para que cospe, quanto para quem engole! O sincero é todo aquele que ninguém gosta de tê-lo perto, a não ser que haja um benefício em tê-lo perto, ainda assim não gosta! Falaram-me, certa vez, que não convém omitir quando a postergação de um ato possa trazer prejuízos maiores, se forem derramados num futuro próximo. Vejo, contudo, que independente do momento em que bebamos da verdade o gosto será o mesmo e a dor estomacal será a mesma. É bem verdade que fatores externos podem intensificar as percepções e deixá-las muito maiores do que são, mas isso é relevante? Ser-nos-emos menos "malvados" se falarmos algo, não hoje, mas amanhã ou depois? Não, creio que independente do momento haverá sempre alguém para falar: - Agiste precipitada e nefastamente! É melhor não dizer. Sim, é sempre melhor não dizer! Em algumas coisas as pessoas não acreditarão quando a verdade for exposta e em outras se omitir uma mentira insistirão que você realmente fez, o que absolutamente não fez. Não há remédio para isso. E quando houver necessidade de promover justiça com a verdade, ainda assim é melhor omitir algumas coisas, pois haverá alguém que se sentirá lesado. Há meses que em minha cabeça habita um monstro sem face! E todos os dias esse monstro diz que tenho que fazer algumas coisas, mas tais coisas não parecem sensatas. Quer dizer, sensatas até que são, mas não seriam justas se eu indicasse alguns pressupostos que constituem os atos da peça inteira. Normalmente um personagem faz algumas coisas tentando não machucar as pessoas, mas sabemos bem que sempre machucam, ainda que não tenham intensão de fazê-lo. Eu não sou esse personagem! Sou o vilão. O lado negro da força. Hesito diante das conjunturas visando estruturar o terreno para a plantação e planto! E nascem muitas coisas, mas nada do que queria eu que nascessem. Aqui entra o segundo ato, ato este que constutiu acabar com a plantação (sou mesmo o vilão, não?). Creio que não há solução outra que não esta. Ser sincero é um vício que não tenho! Ademais não poderia ser sincero, pois isso é um defeito que traz problemas significantes para o contexto geral das relações. - Isso meu amigo, vá em frente e faça o que tem que fazer. Alguém sempre irá sofrer, talvez esse alguém seja você, tudo é possível! Gostaria de poder dizer isso sem que tais palavras causassem um certo temor ou ressentimento. Impossível, sinceridade e falta de temor são produtos que quase nunca se misturam e quando misturam coisa boa não sai. {Pensamentos e exemplos omitidos} Não minta, mas omita! A verdade é valiosa demais para ser a causa de sua ruína. {...}