Pecador

Pecado meu! Tara luxuriosa,
eis-me aqui, pecaminoso,
entre cada cão primoroso,
que não ladra, mas glosa.

Eis-me vulnerável à vara,
que cujas mãos não tremem,
só, em momentos, estendem
em subserviência à cara.

Pecados que me soçobram,
e deleitam aos juízes boçais,
são meus, e me adoçam...

me adoçam bem e demais,
pois livrar-me destes animais
requer pecados colossais.

Olhar vazio

Folhas vazias. Quarto escuro.
Eis o que se vê,
                       ou não se crê!
                      insípido futuro!

Inquietação constante, irritável.
Quem come o que sonha?
Quem não sonha?
Cadê o movimento reprovável?

Da escuridão a luz é maior,
mais brilhante e mais bonita.
Porém, conhecer o pior
e nada fazer é vida aflita.

Olhar vazio em mente quebrada.
Pensamento descosturado,
Não desconstrói o passado,
nem muda a vida desgastada.

Fruto

Eis-me como um fruto,
que completamente amadurecido,
desprende-se d'onde nascido,
e cai... no sofrer arguto.

E cai, por que deve cair,
aprendendo com o desabamento.
Revivendo a dor e o termento,
que é sentir-se emergir.

E fruta d'uma árvore celestial,
que, para tornar-se madura,
deve abandonar o umbilical

galho teso que lhe segura,
pois amarelar é sempre vital,
para seguir a curta aventura.

É tarde

É tarde, e ninguém vê o sol.
É tarde, e nada resplandece.
É tarde, e se sabe... adoece.
É tarde, e nada n'um arrebol.

É sempre tarde, esqueceu!
É sempre tarde, que mania.
É sempre tarde, vai... espia...
É sempre tarde, escureceu.

É tarde demais, não vá atrás!
É tarde demais, já se encerrou.
É tarde demais, tanto faz.

É tarde rapaz, o tempo passou,
É tarde rapaz, a vida acabou,
É tarde rapaz, que "aqui jaz"...

Superlativos

Desmontava abstratos alheios,
princípios em plumas pruridas,
Recordações, terras túmidas,
enleios, enleios, enleios...

Recôndito numa imensidão
de tudo e nada... e mais além.
Ora doce... argúcia refém,
Ora acre... juízo perdição.

Tudo, e tudo, e tudo... Alguém?
Verbo indefeso, ileso, teso...
Aqui, onde chove e cerzem,

Bocejos, numa boca de sobejo,
que não é... bem, não é bem...
é consequência, mérito e pejo.

Tardecências

Calo-me diante do trovão,
é tarde e não, não vou além.
Calo-me diante do amém,
e fico aquém da perdição.

É tarde, clamo à escuridão,
pueril saudação, um réquiem.
Recorto detalhe do além...
(é tarde, meu bem) é prisão.

Recalcitrâncias e martírio,
vozes d'uma alma, medo.
É tarde... dorme-segredo

É tarde... flui o lírio
da matilha qual rochedo
que brilha num delírio.

Amar

Desilusões e paixões ligeiras,
sonhos e pesadelos do cotidiano,
eternidade de verbo leviano,
fortunas voláteis e passageiras.

Ainda que engenhoso o plano,
haverão desventuras e solidão,
pois não vive só de amor o coração,
nem só de pão o ser humano.

A vida é um mar de sensação,
com languidas quedas e pesar,
é estrada turva para a perdição,

é castelo para tudo o que cativar,
por isso, independente da tentação,
não busque o amor, busque amar.