Pedaços

Por quê não podemos, simplesmente, guardar uns sentimentos no bolso para usá-los quando quisermos? Usá-los de forma desmedida e desmoderada? Ter o poder, por exemplo, de dar amor a quem temos ódio mortal. Dar carinho a quem precisa de carinho. Oferecer, a quem sempre pede, orgulho. Ternura... Seria bom? Ruim? Essa miscelânea de sentimentos é o que nos faz humanos? Será? Eu, no fim das contas, queria ter um bolso. Dobraria cada sentimento e guardaria nele para usá-los de forma mais racional. Para testar cada sentimento! Por que, sendo humano, a única coisa que aprendi foi a deteriorar. Hoje faço isso bem, deterioro tudo, inclusive sentimentos!

Curiosidade!

A curiosidade é um defeito. Um péssimo defeito, cujo maior atributo é a ânsia de matar a própria curiosidade. Esse era o mal de Carlos. Homem demasiadamente virtuoso, contudo de uma curiosidade estratosférica. Daqueles que não se aquietava enquanto não matava a curiosidade. Tão curioso, que ao lhe sussurrarem sobre um acidente terrivelmente trágico, foi em sua procura. Para a supresa de Carlos o acidente - trágico, terrível e letal - da qual foi a procura era o seu próprio.

As cortinas

Era como descortinar um passado sombrio, e enterrar as memórias faustas. Ele só queria um pouco de terror em sua vida, já que a felicidade era tudo que tinha desde que tinha vida. Felicidade era um mal necessário, dizia. E para quê? Ninguém é feliz sendo feliz sempre. Queria terror a todo custo. Decidiu que faria algo terrivelmente terrível. E fez! Depois disso a única lembrança que teve foi das cortinas do quarto se fechando para sempre.

Universos

O universo é vasto. Tão imenso e grandioso que estes olhos, que a ti veem, não podem vê-lo por completo. O universo é tão completo que não podemos imaginar o que não há nele, pois nossa imaginação não é tão completa quanto ele. O universo é um gigante solitário por natureza, pois, no alto de sua grandeza, não a outro igual a si. Poderiamos imaginar várias e variantes coisas, poderiamos... porém nenhuma tal qual o universo. O universo é o que há de mais lindo e mais infinito dentro do que conhecemos. Ainda assim, esse gigante que vaga solitário pela imensidão não é do tamanho, nem da grandeza, do sentimento que tenho dentro de mim.

Das configurações

Num dia em que se sentia extremamente estafado, enquanto delirava sobre tudo o que não vivera, resolveu desconfigurar-se e apagar o próprio disco rígido. Nenhuma informação restou. Tornou-se outro na esperança de fazer o que não havia feito. Aconteceu, porém, que ao reinstalar-se, mesmo sem saber, continuou sendo o que era, pois o sistema era o mesmo. A diferença é que as "novas" informações eram mais doridas.

Esquecimento

Era d'um esquecimento sem precedentes, esquecia tudo. Tão esquecido que ao se afogar precisou pelo empuxo ser lembrado de que deveria boiar.

Um tal arrepio...

Andava pela rua deserta à meia-noite. Era lugubre. Tudo muito calmo, a luz serenando sobre o asfalto frígido. A lua escondida no tempo. Contornou a esquina, viu um vulto. Sintiu um calafrio percorrer os poros. Era a solidão. O medo lhe contorceu os cabelos. Correu até se encontrar com sua própria sombra!