Paixões e erros

Talvez os seres humanos estejam despidos
das paixões e dos erros.
Paixões e erros que os tornam
almas jovens.
Transgredir o tempo é apaixonar-se
pela vida
repetidas vezes e esquecê-lo
- o tempo -
a cada nova transgressão.

~20/08/2012

No meu quarto...

Na escuridão do meu quarto,
eu liberto o meu eu-calado!
Falo para Galileu que a terra
ainda é Quadrada.
Dou risada da desgraça alheia,
sem medo dos que de mim riem.
Admiro o piso sujo e mal-acabado,
vejo os insetos através do buraco
da janela. Vejo o mundo através dela.

Na solidão do meu quarto,
digo aos mortos que ninguém
pode entender os vivos.
Digo que ninguém mais vive!
Respeito o isolamento alheio,
respiro fundo, grito, serpenteio.
Invento poemas ao nada,
faço viagens na imaginação,
interpreto um homem são!

No abstrato do meu quarto,
eu sou algoz, sou infinito, sou...
sou truão!
Uso termos desconhecidos,
faço versos às formigas,
investigo mortes não havidas,
mastigo as minhas feridas!
Remonto quebra-cabeças,
que jamais tiveram peças!

No interior que é o meu quarto,
sou malabarista das minhas vitórias!
Faço cores com derrotas,
e pinto o mundo com minhas botas.
Escrevo na claridade sobre o dia,
vejo pássaros sem asas voarem,
faço amizade com as baratas,
e me enclausuro no contar da hora!
Lá sou tudo que não sou aqui fora.

~18/10/2011

Distopia

Casará ainda muito nova, aos vinte e um anos. A vida era frugal, mas ela gostava dos sabores pitorescos. Não acompanhava a vizinhança, e fazia gosto da distância. Por educação cumprimentava, mas mal sabia o nome do padeiro da esquina. O marido, ao contrário, era um homem simpático, educado e, principalmente, apaixonadíssimo pela esposa. E dizia: "Por ela faço tudo". As vizinhas não acreditavam em sua santidade: "homem é safado por instinto", mas ele não dava samba. 

Após três anos de casados, a vida parecia entrar numa rotina típica do triênio marital. Os dias se resumiam a trabalho, jornais, novelas e afazeres domésticos, da qual o marido sempre participava. Não queriam filhos, achavam-se novos, e com as economias planejavam viagens à praia, que sempre eram postergadas por gastos extraordinários.

Quando completaram exatos cinco anos de casamento ela chamou-o para jantar, e, enquanto ele se preparava, ela fez o pedido: "Quero uma surra de presente". O marido, sem reação, disse: "Deixa de bobagem, e sente-se" e sorriu gentilmente. Ela insistiu: "Uma surra, por nosso casamento". O homem, que jamais pensou em agredir qualquer pessoa, não sabia como reagir. O pedido não parecia surgir de uma pessoa sã. Pensara, na hora, que sua esposa poderia estar com alto índice de stress ou com depressão. De qualquer forma, não sabia como reagir. "Não posso, não tenho coragem". Ela, todavia, foi relutante: "Ou uma surra ou o divórcio".

Diante da situação, ele apoderou-se de um medo terrível e, sem pensar nas consequências, bateu em sua esposa como nunca havia feito em sua vida. Ela, porém, não chorava, parecia a cada novo golpe mais e mais eufórica. Gemia e pedia para que batesse mais e mais. Extenuado ele cai, e ela sobre ele. Ao vê-la, quase sem vida, e extremamente machucada, percebeu que ela já não era sua bela e amada esposa.

A solidão, então, o contamina. Sentia como se houvesse perdido o amor de sua vida, embora ela sangrasse ao seu lado no chão da cozinha. Ele a beija, no ímpeto de recuperar o amor que abrasava seu coração, mas só sente sangue. O abismo é cada vez mais medonho. Ela sorria, ele despedaçava. Tomado pela brutalidade da vida, segue até o banheiro e, com uma tesoura, fura os dois olhos. Não podia ver o que antes era a felicidade, portanto decidiu apenas senti-la. Foram felizes, e em todo aniversário de casamento a comemoração era banhada de sangue.

Noite

Tirou do bolso um maço surrado de cigarros. Bateu-o contra a mão oposta até que um cigarro saltasse ao maço. Tomou um cigarro pela boca, e deixou cair o maço em seu colo. O cigarro aguardava o fogo. Ele estava disperso olhando o horizonte. O alaranjamento devorava o céu azul, e ao mesmo tempo era devorado pelo negrume da noite. Parecia ser uma decisão difícil. Ele pegou o esqueiro no bolso da calça, mas não tirou a mão do bolso. Deixou-a lá, inerte, como que se dela fosse a responsabilidade. Tudo alaranjou, depois enegreceu. Quando a noite caiu, ele fumou, e esperou que o céu caísse sobre si, mas era o si sendo maior que o céu.

Devir

Quem dirá adeus aos velhos hábitos,
e se norteará por vales sombrios?
Quem fará da mente lagos e rios,
em que correram novos espíritos?

Quem dirá adeus às velhas convenções
enquanto engole todas as mundanidades?
Quem dará os ombros às verdades,
e não se esconderá das desilusões?

Há quem espere a decrepitude
de uma vida bucólica e senil.
O ofuscar dos dentes, a vicissitude,

o palácio de um mundo vazio.
Há que não queira apenas existir,
queira o viver, queira o devir.

Traição

Bento recebe uma ligação. Escobar, Emília e Ezequiel estão mortos. Com espanto Bento busca informações do ocorrido, e lhe falam das suspeitas de traição e suicídio de Escobar. O comentário era que Emília estava de caso com Ezequiel, seu primeiro amor e que Escobar pegou-os no ato e os matou.

Uma semana antes Escobar aguardava com uma expressão indizível à porta da casa de Bento. Logo que o amigo aparece à porta, encosta-o contra a parede e diz: - Minha mulher me trai. Bento, sem pensar, diz que é loucura de Escobar, mas o outro é taxativo. - Tenho minhas queixas, só preciso de uma prova para acabar com tudo. No caminho do trabalho, Escobar expõe suas aflições e Bento apenas ouve. Ao fim do expediente, Escobar encontra Bento e expõe seu plano. - Se se confirmar eu mato.

Nos dias que se passam Bento ouve as queixas do amigo, e sempre lhe fala: - é ideia tua. Escobar, entretanto, está transtornado, e tornou-se outra pessoa, consumido pela ideia de que Emília o possa estar traindo.

Escobar conta a Bento que contratou um detetive particular, e que dentro em breve terá provas da traição da esposa. Bento apenas diz que não acredita no caso. O detetive instala escutas telefônicas na casa de Escobar e descobre que Emília vai se encontrar com um homem, da qual não  conseguiu identificar.

É sábado, Bento faz duas ligações. Escobar está irreconhecível, mas mantém seu plano. Às três da tarde Emília diz que precisa ir ao mercado, que volta dentro de poucas horas. Escobar soa frio, vai até seu guarda-roupas, pega um revolver e sai.

Às três horas, Escobar está no endereço fornecido pelo detetive, aguardando Emília. Às três e cinco horas, Emília chega, toca a campainha e entra. Escobar aguarda inquieto no carro por dez minutos, e então vai até a porta do imóvel. A porta está aberta. Escobar entra, e se dirige, com o revolver à mão, ao quarto. Abre lentamente a porta do quarto flagra Emília deitada e Ezequiel sobre ela. Ouve-se três tiros.

Bento recebe uma ligação. Escobar matou Emília e Ezequiel, depois se matou. Bento, após desligar o telefone, solta uma gargalhada. O plano funcionou, deitado ele relembra do telefonema que deu a Emília e a Ezequiel. Emília o rejeitara como marido, e escolheu Escobar, ambos pagaram o preço.

Descaindo

O dia descaiu, e o sol poente sequer subiu. Ficou ali no horizonte olhando como quem olha o infinito. A noite descaiu, e a lua crescente sucumbiu. Empreteceu o céu, e iludiu quem se ilusionava. A vida descaiu, e servil. Apequenou-se no céu sem sol de nuvens descaídas. A paixão descaiu, e aos insanos sanou senil. O amor descaiu, e no seu descaimento - profundo, insano, ardil - o mundo sumiu.