Descaindo

O dia descaiu, e o sol poente sequer subiu. Ficou ali no horizonte olhando como quem olha o infinito. A noite descaiu, e a lua crescente sucumbiu. Empreteceu o céu, e iludiu quem se ilusionava. A vida descaiu, e servil. Apequenou-se no céu sem sol de nuvens descaídas. A paixão descaiu, e aos insanos sanou senil. O amor descaiu, e no seu descaimento - profundo, insano, ardil - o mundo sumiu.

O simulador

Em 2059 os vídeos-games são escassos, e perderam muito espaço para o computador quântico e a internet por satélite. Os jogos simuladores são o que há de mais tecnológicos. A imagem HD já não existe. Agora é usado um simulador de realidade, em que o jogador é imerso no jogo. Os jogos de guerra são cada vez mais comuns, e simulam com muita fidelidade os "battlefields".

Todos os jogos estão conectados na grande rede de internet. No final do ano de 2058, uma empresa, até então desconhecida, lança gratuitamente o jogo "War Generation". Com pouco menos de um mês já existiam mais de cinco milhões de pessoas conectadas ao jogo. A simulação era tão fiel que os jogadores poderiam jurar que estavam matando pessoas verdadeiras.

No "War Generation" os jogadores comandavam as "Destroyers" máquinas cibernéticas construídas para evitar que pessoas fossem para os "BattleFields". Os mapas do jogo simulavam territórios reais de vários países.

Viciante e perturbador, o jogo, no fim do ano de 2059, atingiu mais de sete milhões de jogadores. Ocorreu, contudo, que por uma suposta falha no servidor central do jogo, só poderiam entrar novos jogadores quando outros fossem destruídos.

Num paralelo, no mesmo ano, as guerras por água potável, minérios e petróleo estão por todos os lados do mundo. Países com alta tecnologia bélica fizeram investidas contra países menores e com pouca tecnologia bélica. Os noticiários, a maioria ligados aos seus governos, camuflavam os verdadeiros motivos das guerras. E os robôs cibernéticos eram usados para invadir e atacar os territórios. As "dívidas" da guerra eram pagas com as riquezas das nações. Eram verdadeiros golpes de estado.

"War Generation" continuava a todo vapor; Os melhores "destroyers" recebiam medalhas e promoções dentro do jogo. Alguns eram promovidos para generais, outros recebiam capacitação para controlar "destroyers" voadores, outros para "destroyers" aquáticos. O fato era que o exército "destroyer" estava cada vez mais capacitado, e cada vez melhor nas batalhas. As baixas dos "destroyers" diminuíam a cada ano. Os treinamentos eram cada vez mais frequentes. E os exércitos podiam ser deslocados de território sem prévio aviso. Os "destroyers" munidos de arma laser, e quase não ficavam sem munição, entretanto existiam os "saviors" que faziam a troca de munição dos "destroyers" sempre a munição estivesse por acabar.

A popularidade do jogo era enorme, e jogadores bem colocados no ranking do jogo faziam "live stream" e cobravam para que os usuários assistissem suas partidas.

"Killer" era o melhor jogador. O número um do ranking mundial. Ele morava em "Wealth", um país populoso e muito opulento em água, minérios e petróleo, e que ficava no oeste da Asia. A prosperidade do país foi sempre "bem vista" por muitas potências mundiais (alguns diziam que cobiçada). Acontece, porém, no início do ano de 2060 o país travou a exportação de água potável, minérios e petróleo. Isso por que seu mercado interno carecia de melhor atenção. Isso causou alvoroço em todo o mundo. A organização do comércio da terra instituiu embargos contra "Wealth", porém isso não foi suficiente para mudar o panorama. O país resguardou suas reservas para sua própria população.

Dois meses após o conflito, o império do norte noticiou que "Wealth" estava criando a bomba de nêutrons e que se o país não paralisasse a produção eles tomariam medidas drásticas. "Wealth" liberou uma nota mundial informando que as pesquisas que estavam fazendo tinham fins pacíficos e voltadas para a produção de combustão fria. Emitiu relatórios sobre as pesquisas, entretanto os relatórios jamais foram divulgados. Deu-se, então, uma nova guerra. O império do norte invadiu "Wealth". Colocou todas as suas tropas cibernéticas do ar, terra e água. "Wealth" se defendeu com seus exército de exoesqueleto.

"Killer" continuava jogando. Soubera da guerra, e resolveu não fazer parte do exercito do seu País. A guerra já ocupava vários Estados de seu país. As tropas de ambos os países tinham muitas baixas. Ele só sabia do que via os jornais de seu País divulgar. Enquanto isso, "Killer" se descobriu num território parecidíssimo com seu País. Entre um mapa e outro acabou destruindo monumentos idênticos aos existentes em seu País. Quando a guerra chegou a sua cidade, "Killler" continuou jogando. Os robôs cibernéticos do império do norte estavam em confronto com o exército de "Wealth".

Nos dias que se seguiram, o exército de "Wealth" conseguiu repelir o exército do império do norte. "Killer" que já estava ressabiado com o jogo, descobriu que tinha sido enviado para um mapa que era idêntico à sua cidade natal. Começou a jogar e destruiu algumas unidades inimigas, e para sua surpresa se deparou com um monumento que só havia em sua cidade a estátua da colina do norte. "Killer" ficou perplexo. Não queria acreditar que ele, um simplório jogador, era na verdade uma das unidades da tropa do exército do império do norte, e que aquilo que ele pensava ser um jogo era, na verdade, um programa de controle de unidades verdadeiras; Entrou num profundo conflito interno, e não sabia o que fazer. Continuar não era uma opção. "Killer" comunicou o governo e as agências de inteligência militar, e determinou que suas tropas recuassem. Numa jogada de inteligência e astúcia, informou a todos os jogadores que a forma de jogar "War Generation" havia mudado. Doravante os confrontos seriam entre os próprios jogadores, e só assim acumulariam pontos. Destruição de território e de qualquer povo estava proibido e os jogadores que insistissem seriam banidos e/ou perderiam pontos do ranking. Os jogadores começaram a se digladiar. Alguns jogadores, alcançaram alta pontuação em pouco tempo. O sistema não reconhecia o fogo amigo como falha, mas como parte do "jogo". Em pouco tempo, as tropas do império do norte estavam acabadas. Apenas algumas unidades sobraram.

Quando o império do norte se deu conta de que alguém teria descoberto que o "War Generation" não era um jogo, eles imediatamente desativaram o sistema, e sumiram com os servidores. Enquanto isso, os jornais de alguns países aliados de "Wealth" já começavam a divulgar o sistema do império e comentar a trama diabólica. A repercussão mundial não demorou. Os países aliados se unirão para atacar o império do norte, enquanto isso eles já preparam outro jogo o "fourth war". Uma nova guerra deveria começar em breve, dessa vez o império do norte seria o único alvo.

O acidente

O jornal do meio-dia noticiava: "Jovem morre em acidente na rodovia...". Segundo a notícia o motorista dirigia fora do limite de velocidade permitida para o trecho, e teria perdido o controle do veículo e capotado várias vezes. Morreu no local. Nem o cinto de segurança, nem o Airbag salvaram a vida do jovem. A notícia ainda contava que no local do acidente reuniram-se muitos curiosos, entre eles um chorava muito. Aparentemente, ver aquele homem, cuja cabeça estava desfigurada, causou-lhe muita consternação. O repórter entrevistou um dos peritos que se encontrava no local e este ressaltou que a causa da morte seria múltiplas fraturas. O perito ainda disse que não havia sinais de racha ou assassinato.

Longe da cena do acidente um homem andava atormentado. O jovem morto, sua cabeça desfigurada, o carro destruído... toda aquela cena que ele vira com os próprios olhos agora o atormentavam. Ele, homem religioso e temente a Deus, rezava para que aquela tormenta passasse. Não passava. Um mês após o acidente ainda tinha sonhos com aquela cena horrenda.

O homem visitou o jovem no cemitério. Rezou pela alma do jovem, e até fez promessa. Nada funcionou. Os dias se passavam e o homem continuava a ter sonhos cada vez mais terríveis com o jovem desfigurado. Na maioria das vezes ele sonhava com o acidente, e com o jovem levantando no carro e falando algo que não entendia.

Já haviam se passados longos três meses e os sonhos ainda não tinham parado. O homem já não sabia mais o que fazer. Já tinha acendido mais de duas mil velas para a alma do jovem, crendo que fosse ela quem o atormentava.

Com os sonhos cada vez mais reais, ele passou a ter medo de dormir. Tinha insônias terríveis e passava dias sem pregar os olhos. Era um caco em pessoa. Estava desatento, trabalhava pouco e passava o dia ocupando a mente, porém era só pregar os olhos por um segundo que os sonhos apareciam e o atemorizavam.

Após seis meses do acidente, o homem alucinava. Conversava com quem não existia, falava sobre uma suposta perseguição. Ninguém entendia. A única coisa recorrente na vida daquele homem, era o fato de os sonhos persegui-lo. Era um humilde e solitário borracheiro. Por que diabos tinha que ser tão atormentado?

Exatamente um ano após o acidente outra tragédia era narrada pelo âncora do jornal local. No mesmo local do acidente anterior, um homem havia sido atropelado. O repórter contou que o socorro chegou tarde, e que o homem não sobreviveu. O repórter contou ainda que os policiais encontraram uma carta com o homem, e que tal carta indicava um provável suicídio.

O repórter contou que o homem narrou na carta que estava sendo atormentado por sonhos terríveis e que estaria sendo perseguido pelo espírito do jovem desfigurado do acidente de um ano antes. Relatou que viver tornara-se impossível. Contou que fizera tudo para conseguir viver em paz, entretanto, não obtivera êxito. Por fim, relatou que matara o jovem desfigurado. Acidentalmente, mas tinha matado. A carta continha tinta borrada, marcas que demonstravam que o homem a tinha escrito sob choro. Numa das passagens, o homem relatou que cerca de duas horas antes do acidente do jovem desfigurado, ele próprio teria jogado vários pregos na rodovia. Que viu o acidente, e sabia que o tinha ocasionado acidentalmente. Concluiu a carta dizendo que: "após um ano do acidente do jovem, compreendi que só a morte paga a morte."

João e Maria

Numa noite estranha de carnaval, João bebe além da conta. Embriagou-se completamente. Estivera tão embriagado que mal saberia soletrar seu próprio nome. A noite desenrola-se pra ele em flash. Acorda no dia seguinte – numa ressaca infernal – e vê-se deitado numa cama ao lado de uma mulher que desconhece. A mulher está amarrada à cama, e ele não se lembra dela. Ele percebe que a mulher está dormindo e decide ir embora, sem se fazer notar. 

Após o carnaval por um infortúnio da vida, reencontra a tal mulher e, no mesmo instante, reconhece-a. Tenta evitá-la, mas ela vai ao seu encontro. A mulher apresenta-se. Chamava-se Maria. Ela diz a João que tinha sido estuprada por ele e que se ele não se casasse com ela, o futuro dele seria mais incerto que o do ganhador da sena.

João está, então, num beco sem saída. Não se recorda de nada daquela noite, exceto o fato de ter realmente acordado ao lado daquela mulher que agora lhe propunha algo estranhíssimo. Ele tenta descobrir os motivos da mulher. Ela apenas diz que não é mulher de dois homens, e dá o cheque-mate. Ou casa, ou cana. 

Três meses após o fatídico dia de porre, casam João e Maria. Desde então João é um miserável, um homem sem ambições, que vive para a mulher e para a cachaça. Maria, ao contrário, é uma mulher feliz, que contenta-se em ser casada e ter um bom marido, que a respeita. 

Passam-se os anos, e a angústia de João aumenta exponencialmente. Somam-se mais de dois anos de casamento e João só tem uma única companhia fiel, a infelicidade. O casamento era uma fraude e ele era um criminoso que estuprara a mulher com a qual se casara. A vida do miserável era um eterno conflito das desgraças que carregava. Maria era uma mulher fantástica. Uma ótima dona de casa. Um mulher de muitas virtudes, e além disso nutria por João um amor incomum, tão incomum quanto o fato de casada com seu próprio abusador. 

Pensava João que Maria, talvez, fosse doente. Como ela poderia ter feito proposta de casamento ao criminoso que a poluiu? João jamais entendeu, e jamais questionava Maria sobre o passado. 

No auge da infelicidade João resolve se matar. Depois de fazer sexo violentíssimo com sua esposa, empunha o revolver que guardava no criado e aponta-o para sua própria cabeça. Maria desespera-se ao ver João diante da morte, e – num átimo de arrependimento - conta para João que a nunca existiu estupro. Conta que inventara a história para João consentisse em se casar com ela. 

Maria conta todo o enredo da noite de carnaval para João. Declara-se para ele, dizendo que ele é e sempre será o único amor da vida dela. E que se ele se matar, a matará. João então aponta o revolver para Maria, que não o teme. Maria ainda diz que se pudesse escolher, desejaria morrer pelas mãos de seu único e grande amor. João desfere um safanão na cara de Maria, que cai sobre a cama do casal. Maria se levanta e abraça João. 

João diz barbaridades a Maria, que só consegue chorar. João empurra Maria e desfere-lhe outro safanão na cara. Esta caí novamente sobre a cama. João então se senta na cama, e fica em silêncio, enquanto Maria chora. Após longos minutos, João puxa Maria para os seus braços, e diz que ela arruinou sua vida. Diz, entretanto, que apesar de tudo aquela era a maior prova de amor que alguém poderia dar a outra pessoa e que aquele amor só poderia ser o mais puro amor já concebido. João, então, beija Maria longamente, e eles então fazem amor pela primeira vez depois de muitos anos de casados. Só então foram realmente felizes como um verdadeiro e apaixonado casal.

A ratoeira

Passou a semana inteira sendo atordoado por sua esposa. Ela vira um rato na cozinha. Mulheres nunca gostaram, talvez seja algo recíproco. Nunca se saberá. O homem, contudo, teria que pegar o rato, do contrário a perturbação constante e irritante não cessaria. Ele foi ao mercado e comprou uma ratoeira. Montou a ratoeira. Sentou-se em uma das cadeiras da mesa da cozinha e ficou observando os acontecimentos que seguiriam. O rato apareceu. Verificou o local. Aparentava ter medo e fome. Mais fome do que medo, isso verificou-se em função de ele seguir com o plano de capturar o queijo da ratoeira. O homem sabia da armadilha, e sabia que a vida era cheia dessas coisas. Os estelionatários sabiam bem como usar essas armadilhas com os humanos. Enquanto o rato pesquisava a melhor forma de pegar o queijo sem ser notado, o homem pensava num caso que saiu no noticiário local. Um estelionatário aplicara um golpe da qual várias pessoas haviam caído. Ele oferecia um super-emprego. As pessoas, entretanto, pagavam caro para tê-lo. A jornada de trabalho era curta, o salário era alto e não requisitavam qualificação. Era uma ratoeira e tanto. Uma vantagem que muitas pessoas queriam, e pagavam caro. O rato continuava sua pesquisa, já estava a pouco menos de trinta centímetros da ratoeira e maquinava o melhor modo de dar o bote. O homem pensava que as pessoas, assim como os ratos, dispunham de rabos e eram os tais rabos que os faziam pagar caro pelas vantagens "fáceis". Pensava mais. Por que os seres humanos são dados a tais vantagens? Buscar o caminho mais fácil é algo que muitos (ou quase todos) os homens querem. Entretanto, os caminhos fáceis - tanto para homens, quanto para ratos - podiam muito bem ser armadilhas. O rato aproximara-se mais, e estava a menos de quinze centímetros da ratoeira. Aparentemente, o prêmio é a única coisa visível nesse estágio. Difícil perceber algum tipo de armadilha, a não ser que haja algum tipo de barulho que a identifique. Sem essa o rato estará fadado a ser pego pela armadilha. Os homens não eram muito diferentes, pensava o homem. A ideia de obter vantagem fácil sempre acaba ofuscando os riscos existentes. Ninguém quer imaginar que as vantagens possam ser armadilhas, embora sejam muitas vezes. O rato também não pensa em armadilhas, só no queijo. Só vê o queijo. Vendo apenas o queijo corre até dar o bote. Quando, enfim, captura o queijo, a armadilha solta-se e prende o rabo do rato que - nesse instante - debate-se incansavelmente de forma a se soltar da armadilha em que caíra. O homem apenas vê a luta pela sobrevivência do rato, e pensa se a vantagem fácil vale o risco de ser pego em uma armadilha. Alguns homens são extorquidos, sequestrados, roubados, assassinados... tudo às custas de armadilhas à base de vantagens. O homem vê, então, que homens e ratos não são muito diferentes. Há, contudo, uma diferença. Constata o homem. Os homens são dotados de valores morais e inteligência e isso deveria fazer com que se afastassem de determinadas situações em que as vantagens são exageradamente ilusórias. Porém, a vida é cheia de armadilhas e há que se tomar cuidado para que não se tenha o rabo preso numa delas. O rato, no entanto, havia se soltado da armadilha. Seu instinto de sobrevivência e a força da ratoeira fizeram com que seu rabo fosse partido em dois. O queijo ficou para trás, mas o homem sabia que um dia o rato voltaria à ratoeira.

A nova era

Com os avanços tecnológicos que surgiram ele começou a esquecer pequenas coisas. Não deu nenhuma importância a isso, afinal pequenas coisas sempre serão pequenas coisas e não fazem falta a ninguém. Esqueceu, por exemplo, que gostava de frutas vermelhas e do cheiro de fazenda que tinha o zoológico local.  Isso, porém, jamais o deixou triste ou indignado. Pensava na vida como ciclos constantes e que o mundo era o que era em função de tudo o que tinha evoluído. O tempo passava e com ele mais coisas se perdiam. Já não lembrava como era conversar com amigos próximos ou como era comer um prato típico de sua cidade natal. Ele continuava não dando importância, afinal tudo parecia pequeno. Tudo tornara-se pequeno diante dos avanços tecnológicos. A vida apequenou-se. O tempo passava cada vez mais rápido. Os dias eram frações de tempo que ele não sabia medir. As pequenas coisas iam se perdendo na ligeireza, e ele não se importava com nada. Repetia para si mesmo: faço parte da evolução. Esqueceu como era ler um bom livro ou como era ouvir uma boa música. A vida passou. A tecnologia estava cada vez mais avançada. Já falava pessoalmente com quase ninguém. Não lembrava dos rostos de pessoas próximas, apenas tinha a sensação de lembrar, isso por que só lembrava de fotos. Esqueceu como era viver pessoalmente, e o que viver representava. Morreu no auge da tecnologia sem saber se era realmente ele mesmo.

O cheiro

Chegou em casa, cansado do dia estafante de serviços burocráticos no escritório, encontrou algumas malas próximas à porta principal da casa. Sua companheira estava sentada no sofá da sala e tinha uma expressão melancólica na face. Antes que Francisvaldo pudesse falar qualquer coisa, Amanda soltou a sentença: - Não quero conversar. Cansei-me dessa vidinha, portanto estou indo embora e ponto! Enquanto Amanda saia da casa e levava seus pertences pessoais, Francisvaldo nada falou. Estava muito abalado com aquela "repentina" atitude. Claro que houveram outras brigas, casais sempre brigam, pensava ele, mas nunca imaginou que ela iria embora. Sentou-se no sofá e tentava acalmar aquele sentimento inquietante que queimava como brasa em seu peito. Dormiu ali, solitário e triste.

Acordou no outro dia e foi trabalhar, ainda carregando um coração avassalado. Estivera tão desatento durante o dia que quase foi atropelado pela lotação que deveria tomar. No fim do dia, sem ânimo para qualquer coisa, voltou para sua casa e deixou-se cair no sofá, disperso. Não ousava usar a cama. Imaginava que o cheiro da ex-companheiro pudesse ter algum tipo de efeito ainda pior sobre sua alma esfacelada. Entretanto, deu conta de que o cheiro da mulher estava em todos os cômodos da casa. O sofá, o chão, o teto, a televisão, as xícaras, até o pano de chão e o banheiro. O odor aguçava a dor que irrompia em seu peito.

Passada uma semana da separação, Francisvaldo contratou uma mulher para dar uma geral na casa. Determinou que se usasse o produto mais forte para extrair qualquer odor que a casa tivesse, requisitou ainda que se fizesse duas limpezas consecutivas com produtos diferentes, para que o odor realmente abandonasse a casa. Ele tinha em mente que a lembrança que tinha de Amanda estava diretamente relacionada ao odor dela que sentia na casa.

Após a limpeza retornou à sua casa. Estava um brinco. Os móveis cintilavam, o piso tinha um tom de novo, as paredes pareciam recém pintadas. Era como se estivesse entrando numa casa recém construída e cujos móveis acabara de comprar. Entretanto, após passar algumas horas na casa, constatou a presença do cheiro que lhe fazia lembrar Amanda. Não sabia de onde ele vinha, mas ele estava ali. No outro dia, requisitou outra novas limpezas consecutivas, desta vez, com três produtos. Assim foi feito. Contudo, o cheiro continuava lá.

Ele pensava, então, que talvez fosse impossível extrair dali aquele odor. Passaram-se meses, e o odor continuava lá, não obstante as tentativas de extraí-lo. Tamanha era a tristeza dele, apesar de todas as limpezas realizada ainda não tinha coragem de deitar-se em sua própria cama. Imaginava que se a casa continha aquele odor, a cama também deveria tê-lo.

Saiu um dia do serviço e, vencido pela insistência dos amigos, decidiu sair para conversar e beber. Após várias cervejas e muitas horas de papo, alguém disse a Francisvaldo que ele talvez estivesse confundindo as coisas. Disse-lhe que o odor que sentia na casa, talvez fosse da casa e não da ex. Francisvaldo não conseguia admitir aquela hipótese, mas não tinha qualquer lembrança do cheiro da sua casa antes de Amanda.

Ao voltar para casa, contudo, Francisvaldo sentou-se em seu velho sofá e ficou a pensar no assunto. Que odor teria sua casa antes de Amanda. Dormiu com aquele pensamento na cabeça. Ao acordar, tinha uma nova perspectiva sobre o odor que sua casa tinha. Constatou que aquele odor que a casa exalava não era de Amanda, mas da própria casa. Foi até a sua cama, e cheirou-a inteira. Nada havia de Amanda ali, apenas um cheiro de amaciante leve e terno. Feliz por ter desfeito a confusão em sua cabeça, ratificou aquele cheiro era realmente da casa. Deitou em sua cama, e dormiu. No outro dia, já esquecido de quem era Amanda, refazia sua vida com Estela, a vizinha de quem era afim desde os tempos de escola.