Quando é tempo de parar!

Sinto uma tristeza. É triste pensar sobre algumas coisas. Costumo pensar que a vida é um conglomerado de experiências, e que estas experiências devem auxiliar a pessoa a manter-se integra e a respeitar-se mais e mais. O que seria da vida se as experiências não nos servissem de nada. Não sei, nem consigo imaginar como seria. É estanho imaginar que existem pessoas que colocam sua cabeça a prêmio a título de nada. Que existem pessoas que se submetem às piores e mais insalubres experiências pessoais a troco de um sentimento que nada valem, que não são e jamais serão algo que nos dará satisfação.

É triste. Sinto pesar ao pensar que algumas experiências da vida possam ser algo tão cruel, e que existem pessoas que gostam de se submeter - por vontade própria - a tais situações sem se darem qualquer valor. Onde fica o auto-respeito, a auto-estima? Quem são essas pessoas? Será que elas algum dia conseguirão ver-se como pessoas?

Só penso então quando será o tempo de parar! Quando será a hora de ser ver como uma pessoa e se dar valor e buscar esse valor como ser humano. Buscar a felicidade ou algo parecido. Alguma satisfação pessoal que possa lhe dar prazer e vida. Sei que algumas opções são difícies, mas o que é mais difícil que não viver? O que mais difícil que sobreviver num ambiente hostil e totalmente inóspito sentimentalmente?

Jamais fui um catedrático nesses assuntos, entretanto quem o é? Quem tem o total controle da vida? Contudo, é preciso conhecer limites e saber quando é tempo de parar. E talvez, para estas pessoas, seja agora a hora.

Vitória...

O que é ser um vencedor num mundo de perdedores? Dentre todas as perguntas que já me fiz é esta a que mais me incomoda. O mundo é feito de perdedores. Os perdedores estão em todas as classes sociais, em todoas as castas e em todas as situações da vida. A perda está em tuda. Vencer é exceção, mas vende. A gente já nasce perdendo e somos perdedores de sangue. Somos fruto de uma vida em que tudo nos é restrito. Vivemos pela metade, e nos sentimos satisfeitos com essa metade. O mais difícil é saber reconhecer-se um perdedor, e aprender com os erros. As pessoas sempre focam na vitória e a cultuam acima de tudo. No fim das contas perder não é tão ruim. É apenas uma etapa da vitória, mas apenas para aqueles que reconhecem a derrota como a verdadeira deusa.

Hoje...

Hoje eu queria poder dizer o que não sei;
         Falar aos ouvidos dela
         Coisas que agradam só a ela.
         Dizer que sinto o que sinto,
         Que sou puro amor e minto.

Hoje eu queria poder dizer sem piedade;
         Dizer tudo o que acho que sei;
         Proferir elogios ou só “cansei”;
         Pensar em coisas vãs que vão
         E esquecer que esquecer é tradição.

Hoje eu só queria poder falar sem medo;
         Falar, talvez, do mundo poético,
         Do amante de amores cético;
         Falar que só existe tudo e nada,
         E que já encontrei coisa na estrada.

Hoje eu queria poder falar do desentendido;
         Do infinito: treva ignorada, aquário rico;
         Da ilusão bela, forte e imprudente,
         Que é tudo na vida de muita gente,
         Que sempre vai, enquanto eu fico.

Hoje eu só queria poder falar, e falar, e falar...
         De coisas desconexas, da qual não sei.
         Talvez de sonhos que nunca terei,
         Ou talvez do mundo que desconheço,
         Em que acordo, vivo e sempre padeço.
Hoje não!
Hoje não vou falar de nada.
Talvez esquecer.
Por que o mundo não ouve.
E viver basta, basta viver.

Ninguém é imperfeito por querer!

Ninguém é imperfeito por querer, me disseram. Pensei nisso por horas, dias, semanas... Parecia racional pensar que a imperfeição não é algo voluntário; mas ao mesmo tempo não era tão crível assim. Por que então que a imperfeição é involuntária? Parece-me por que ninguém - em regra - vive para ser imperfeito, ao contrário disso buscamos sempre nos melhorar - e isso, às vezes, não passa de ideologia barata de venda.

A ideologia da perfeição é um mecanismo de controle muito eficaz, por meio dele algumas instituições conseguem obter vários resultados que lhes satisfazem. E quem não deseja ser perfeito? Quem não deseja ser o melhor entre os melhores?

Realmente ninguém é imperfeito por querer, justamente por que ocupa-se todo o tempo buscado o oposto disso: A perfeição. Nos ensinaram que o imperfeito é feio, e que o feio não é bom, e o que não é bom não é coisa de Deus.

Ser imperfeito e querer sê-lo é uma virtude? Admitir a imperfeição é admitir que existem limitações. Entretanto limitações existem para serem quebradas, por que o que se busca - neste mundo humano - é a perfeição. E a perfeição - todos sabem - é uma coisa que sempre está mais longe do que realmente parece, e quando alguém tê-la pego nota que não passava de uma miragem.

No fim das contas descobrimos que realmente "ninguém é imperfeito por querer", justamente por que a idéia de perfeito está ligado ao bem.

Do que se não deve pensar!

[321 DC]
Encontrava-me em um estado em que tudo era mais que imaginável. Qualquer coisa, quer fosse real ou não. As idéias pareciam, a partir desse modelo de pensamento, liquidos em recipientes que eu mesmo criava. Elas - as idéias - tomavam a forma do recipiente e fluiam entre um recipiente e outro tomado vários tipos de forma. Porém, de um tempo pra cá começo a questionar as razões pelas quais a imaginação não parece simples conjuntura, mas situações que tem - se bem pensadas - podem se tornar reais.

Achei-me louco, não louco-louco. Entretanto um tanto quanto insensato. Até por que tudo quanto eu aprendo e aprendi refuta essa idéia. Será que invadiu-me um demônio maligno capaz de fazer com que perca minha sanidade? É bem provável, os demônios são bem disso. Eles consomem a mente das pessoas fazendo-as ficarem loucas com os pensamentos disconexos. No entanto, isso tudo de imaginação me parece tão real.

Abandonei todos os pensamentos, porém eles não me abandonaram. Neste instante estou sentado - encostado à parede da catedral -, pois a hora não me permite entrar e pedir a Deus que me oriente.

Um pensamento mais maligno, porém, também me recorre nesta hora. Penso que preciso açoitar-me até que a vida me seja escassa. Foi isso que aprendemos, e só assim posso expurgar qualquer mal.

Nesse instante, porém, começo a pensar: será que o mal é uma força identica à do bem? Com sentido inverso? Será que o mal é injusto e o bem justo? Será que açoitar-me é justo e bom? Enquanto divagar é injusto e mal? Será que foi o demônio maligno que me fez imaginar? Ou será que foi Deus quem me fez assim? Será o castigo bom? Será o castigo uma forma de volver-me aos preceitos dívinos? Serei eu uma criatura de Deus? Se não for devo me importar com a bondade? O que sou, senão isso que sou? Para que servem estes pensamentos? Os pensamentos, que não em Deus, são injustos e malignos?

Abandonei-me por dias aos questionamentos, mas não movi-me um centímetro de onde houvera sentado. Fiquei lá, com os olhos fixos em nada apenas pensando. Foi então que a guarda imperial me viu - imundo e mal-cheiroso. Tentou contato, mas - ainda compenetrado nos pensamentos - não falei-lhes uma palavra sequer que tivesse sentido. Tido fui por endemoniado, e antes que pudesse justificar qualquer estado encontrei-me com a morte num último banho.

Castelando.

Eu sou um castelo recolhido na areia. O sol que aquece o castelo é minha vaidade. Eu sou castelar, e vou castelando. Sou saudade! Enquanto a areia se transforma em mim sou eterno. Enquanto o sou me castiga sou sol interno. Enquanto me vingo sou austero. Sou castelo, sou invisível, sou sol e sou torto. Enquanto vivo, enquanto morto.