João e Maria

Numa noite estranha de carnaval, João bebe além da conta. Embriagou-se completamente. Estivera tão embriagado que mal saberia soletrar seu próprio nome. A noite desenrola-se pra ele em flash. Acorda no dia seguinte – numa ressaca infernal – e vê-se deitado numa cama ao lado de uma mulher que desconhece. A mulher está amarrada à cama, e ele não se lembra dela. Ele percebe que a mulher está dormindo e decide ir embora, sem se fazer notar. 

Após o carnaval por um infortúnio da vida, reencontra a tal mulher e, no mesmo instante, reconhece-a. Tenta evitá-la, mas ela vai ao seu encontro. A mulher apresenta-se. Chamava-se Maria. Ela diz a João que tinha sido estuprada por ele e que se ele não se casasse com ela, o futuro dele seria mais incerto que o do ganhador da sena.

João está, então, num beco sem saída. Não se recorda de nada daquela noite, exceto o fato de ter realmente acordado ao lado daquela mulher que agora lhe propunha algo estranhíssimo. Ele tenta descobrir os motivos da mulher. Ela apenas diz que não é mulher de dois homens, e dá o cheque-mate. Ou casa, ou cana. 

Três meses após o fatídico dia de porre, casam João e Maria. Desde então João é um miserável, um homem sem ambições, que vive para a mulher e para a cachaça. Maria, ao contrário, é uma mulher feliz, que contenta-se em ser casada e ter um bom marido, que a respeita. 

Passam-se os anos, e a angústia de João aumenta exponencialmente. Somam-se mais de dois anos de casamento e João só tem uma única companhia fiel, a infelicidade. O casamento era uma fraude e ele era um criminoso que estuprara a mulher com a qual se casara. A vida do miserável era um eterno conflito das desgraças que carregava. Maria era uma mulher fantástica. Uma ótima dona de casa. Um mulher de muitas virtudes, e além disso nutria por João um amor incomum, tão incomum quanto o fato de casada com seu próprio abusador. 

Pensava João que Maria, talvez, fosse doente. Como ela poderia ter feito proposta de casamento ao criminoso que a poluiu? João jamais entendeu, e jamais questionava Maria sobre o passado. 

No auge da infelicidade João resolve se matar. Depois de fazer sexo violentíssimo com sua esposa, empunha o revolver que guardava no criado e aponta-o para sua própria cabeça. Maria desespera-se ao ver João diante da morte, e – num átimo de arrependimento - conta para João que a nunca existiu estupro. Conta que inventara a história para João consentisse em se casar com ela. 

Maria conta todo o enredo da noite de carnaval para João. Declara-se para ele, dizendo que ele é e sempre será o único amor da vida dela. E que se ele se matar, a matará. João então aponta o revolver para Maria, que não o teme. Maria ainda diz que se pudesse escolher, desejaria morrer pelas mãos de seu único e grande amor. João desfere um safanão na cara de Maria, que cai sobre a cama do casal. Maria se levanta e abraça João. 

João diz barbaridades a Maria, que só consegue chorar. João empurra Maria e desfere-lhe outro safanão na cara. Esta caí novamente sobre a cama. João então se senta na cama, e fica em silêncio, enquanto Maria chora. Após longos minutos, João puxa Maria para os seus braços, e diz que ela arruinou sua vida. Diz, entretanto, que apesar de tudo aquela era a maior prova de amor que alguém poderia dar a outra pessoa e que aquele amor só poderia ser o mais puro amor já concebido. João, então, beija Maria longamente, e eles então fazem amor pela primeira vez depois de muitos anos de casados. Só então foram realmente felizes como um verdadeiro e apaixonado casal.

A ratoeira

Passou a semana inteira sendo atordoado por sua esposa. Ela vira um rato na cozinha. Mulheres nunca gostaram, talvez seja algo recíproco. Nunca se saberá. O homem, contudo, teria que pegar o rato, do contrário a perturbação constante e irritante não cessaria. Ele foi ao mercado e comprou uma ratoeira. Montou a ratoeira. Sentou-se em uma das cadeiras da mesa da cozinha e ficou observando os acontecimentos que seguiriam. O rato apareceu. Verificou o local. Aparentava ter medo e fome. Mais fome do que medo, isso verificou-se em função de ele seguir com o plano de capturar o queijo da ratoeira. O homem sabia da armadilha, e sabia que a vida era cheia dessas coisas. Os estelionatários sabiam bem como usar essas armadilhas com os humanos. Enquanto o rato pesquisava a melhor forma de pegar o queijo sem ser notado, o homem pensava num caso que saiu no noticiário local. Um estelionatário aplicara um golpe da qual várias pessoas haviam caído. Ele oferecia um super-emprego. As pessoas, entretanto, pagavam caro para tê-lo. A jornada de trabalho era curta, o salário era alto e não requisitavam qualificação. Era uma ratoeira e tanto. Uma vantagem que muitas pessoas queriam, e pagavam caro. O rato continuava sua pesquisa, já estava a pouco menos de trinta centímetros da ratoeira e maquinava o melhor modo de dar o bote. O homem pensava que as pessoas, assim como os ratos, dispunham de rabos e eram os tais rabos que os faziam pagar caro pelas vantagens "fáceis". Pensava mais. Por que os seres humanos são dados a tais vantagens? Buscar o caminho mais fácil é algo que muitos (ou quase todos) os homens querem. Entretanto, os caminhos fáceis - tanto para homens, quanto para ratos - podiam muito bem ser armadilhas. O rato aproximara-se mais, e estava a menos de quinze centímetros da ratoeira. Aparentemente, o prêmio é a única coisa visível nesse estágio. Difícil perceber algum tipo de armadilha, a não ser que haja algum tipo de barulho que a identifique. Sem essa o rato estará fadado a ser pego pela armadilha. Os homens não eram muito diferentes, pensava o homem. A ideia de obter vantagem fácil sempre acaba ofuscando os riscos existentes. Ninguém quer imaginar que as vantagens possam ser armadilhas, embora sejam muitas vezes. O rato também não pensa em armadilhas, só no queijo. Só vê o queijo. Vendo apenas o queijo corre até dar o bote. Quando, enfim, captura o queijo, a armadilha solta-se e prende o rabo do rato que - nesse instante - debate-se incansavelmente de forma a se soltar da armadilha em que caíra. O homem apenas vê a luta pela sobrevivência do rato, e pensa se a vantagem fácil vale o risco de ser pego em uma armadilha. Alguns homens são extorquidos, sequestrados, roubados, assassinados... tudo às custas de armadilhas à base de vantagens. O homem vê, então, que homens e ratos não são muito diferentes. Há, contudo, uma diferença. Constata o homem. Os homens são dotados de valores morais e inteligência e isso deveria fazer com que se afastassem de determinadas situações em que as vantagens são exageradamente ilusórias. Porém, a vida é cheia de armadilhas e há que se tomar cuidado para que não se tenha o rabo preso numa delas. O rato, no entanto, havia se soltado da armadilha. Seu instinto de sobrevivência e a força da ratoeira fizeram com que seu rabo fosse partido em dois. O queijo ficou para trás, mas o homem sabia que um dia o rato voltaria à ratoeira.

A nova era

Com os avanços tecnológicos que surgiram ele começou a esquecer pequenas coisas. Não deu nenhuma importância a isso, afinal pequenas coisas sempre serão pequenas coisas e não fazem falta a ninguém. Esqueceu, por exemplo, que gostava de frutas vermelhas e do cheiro de fazenda que tinha o zoológico local.  Isso, porém, jamais o deixou triste ou indignado. Pensava na vida como ciclos constantes e que o mundo era o que era em função de tudo o que tinha evoluído. O tempo passava e com ele mais coisas se perdiam. Já não lembrava como era conversar com amigos próximos ou como era comer um prato típico de sua cidade natal. Ele continuava não dando importância, afinal tudo parecia pequeno. Tudo tornara-se pequeno diante dos avanços tecnológicos. A vida apequenou-se. O tempo passava cada vez mais rápido. Os dias eram frações de tempo que ele não sabia medir. As pequenas coisas iam se perdendo na ligeireza, e ele não se importava com nada. Repetia para si mesmo: faço parte da evolução. Esqueceu como era ler um bom livro ou como era ouvir uma boa música. A vida passou. A tecnologia estava cada vez mais avançada. Já falava pessoalmente com quase ninguém. Não lembrava dos rostos de pessoas próximas, apenas tinha a sensação de lembrar, isso por que só lembrava de fotos. Esqueceu como era viver pessoalmente, e o que viver representava. Morreu no auge da tecnologia sem saber se era realmente ele mesmo.

O cheiro

Chegou em casa, cansado do dia estafante de serviços burocráticos no escritório, encontrou algumas malas próximas à porta principal da casa. Sua companheira estava sentada no sofá da sala e tinha uma expressão melancólica na face. Antes que Francisvaldo pudesse falar qualquer coisa, Amanda soltou a sentença: - Não quero conversar. Cansei-me dessa vidinha, portanto estou indo embora e ponto! Enquanto Amanda saia da casa e levava seus pertences pessoais, Francisvaldo nada falou. Estava muito abalado com aquela "repentina" atitude. Claro que houveram outras brigas, casais sempre brigam, pensava ele, mas nunca imaginou que ela iria embora. Sentou-se no sofá e tentava acalmar aquele sentimento inquietante que queimava como brasa em seu peito. Dormiu ali, solitário e triste.

Acordou no outro dia e foi trabalhar, ainda carregando um coração avassalado. Estivera tão desatento durante o dia que quase foi atropelado pela lotação que deveria tomar. No fim do dia, sem ânimo para qualquer coisa, voltou para sua casa e deixou-se cair no sofá, disperso. Não ousava usar a cama. Imaginava que o cheiro da ex-companheiro pudesse ter algum tipo de efeito ainda pior sobre sua alma esfacelada. Entretanto, deu conta de que o cheiro da mulher estava em todos os cômodos da casa. O sofá, o chão, o teto, a televisão, as xícaras, até o pano de chão e o banheiro. O odor aguçava a dor que irrompia em seu peito.

Passada uma semana da separação, Francisvaldo contratou uma mulher para dar uma geral na casa. Determinou que se usasse o produto mais forte para extrair qualquer odor que a casa tivesse, requisitou ainda que se fizesse duas limpezas consecutivas com produtos diferentes, para que o odor realmente abandonasse a casa. Ele tinha em mente que a lembrança que tinha de Amanda estava diretamente relacionada ao odor dela que sentia na casa.

Após a limpeza retornou à sua casa. Estava um brinco. Os móveis cintilavam, o piso tinha um tom de novo, as paredes pareciam recém pintadas. Era como se estivesse entrando numa casa recém construída e cujos móveis acabara de comprar. Entretanto, após passar algumas horas na casa, constatou a presença do cheiro que lhe fazia lembrar Amanda. Não sabia de onde ele vinha, mas ele estava ali. No outro dia, requisitou outra novas limpezas consecutivas, desta vez, com três produtos. Assim foi feito. Contudo, o cheiro continuava lá.

Ele pensava, então, que talvez fosse impossível extrair dali aquele odor. Passaram-se meses, e o odor continuava lá, não obstante as tentativas de extraí-lo. Tamanha era a tristeza dele, apesar de todas as limpezas realizada ainda não tinha coragem de deitar-se em sua própria cama. Imaginava que se a casa continha aquele odor, a cama também deveria tê-lo.

Saiu um dia do serviço e, vencido pela insistência dos amigos, decidiu sair para conversar e beber. Após várias cervejas e muitas horas de papo, alguém disse a Francisvaldo que ele talvez estivesse confundindo as coisas. Disse-lhe que o odor que sentia na casa, talvez fosse da casa e não da ex. Francisvaldo não conseguia admitir aquela hipótese, mas não tinha qualquer lembrança do cheiro da sua casa antes de Amanda.

Ao voltar para casa, contudo, Francisvaldo sentou-se em seu velho sofá e ficou a pensar no assunto. Que odor teria sua casa antes de Amanda. Dormiu com aquele pensamento na cabeça. Ao acordar, tinha uma nova perspectiva sobre o odor que sua casa tinha. Constatou que aquele odor que a casa exalava não era de Amanda, mas da própria casa. Foi até a sua cama, e cheirou-a inteira. Nada havia de Amanda ali, apenas um cheiro de amaciante leve e terno. Feliz por ter desfeito a confusão em sua cabeça, ratificou aquele cheiro era realmente da casa. Deitou em sua cama, e dormiu. No outro dia, já esquecido de quem era Amanda, refazia sua vida com Estela, a vizinha de quem era afim desde os tempos de escola.

O coma

Enquanto era residente no Hospital São João, conheceu Maria Clara. Maria Clara era linda, de uma pele alva que lembrava as nuvens, tinha olhos da cor do céu e cabelos dourados. Apaixonara-se no primeiro instante por aquela linda moça. Embora Pedrinho, aproveitando-se da sua residência, passasse várias horas ao lado de Maria Clara, contando fatos do dia-a-dia e coisas da sua vida, ela jamais a ouvira, isso por que Maria Clara estava em coma. Ao que sabia Pedrinho, ela estava em coma desde 2008, quando sofrera um acidente enquanto tomava banho. Isso, porém, nunca o impediu de passar com ela muito tempo e dedicar a ela o carinho que nunca havia dedicado a ninguém. Como Maria Clara não recebia visita de outras pessoas, Pedrinho passou a ser seu único e fiel companheiro.

Em 2010, quando já era médico, Pedrinho passou a se dedicar cada vez mais a Maria Clara. Estudava o caso da moça com profunda paixão. Decidiu que a tiraria do coma, e assim passava noites a fio estudando um meio de obter o resultado. Finalmente, após muito tempo de obsessão e estudo, Pedrinho consegue trazer Maria Clara do coma, e sem esperar declara todo seu amor profundo, obsessivo e incondicional à Maria Clara que, sem entender, nada diz. No outro dia, Maria Clara ainda muito fraca, diz para Pedrinho que não sabe quem ele é, mas que de qualquer forma não pode ficar com ele, pois é homossexual. Desolado Pedrinho não consegue esconder o descontentamento, a tristeza ecoa em seu rosto. Com o coração aos pedaços ele diz para ela descansar em paz. Enquanto Maria Clara dorme, ele desliga os aparelhos que a mantem viva, a beija demoradamente com ternura e vai embora!

Amizades

- nós nos conhecemos?
- não sei.
- não que isso seja importante, mas é que não lembro de você!
- Eu também não lembro de você!
- Como nos tornamos "amigos"?
- Não faço ideia.
- Nem eu!
- Quer ser meu amigo?
- Já somos amigo!
- Mas você nunca falou comigo antes!
- Falta de hábito.
- Já que somos amigos, vamos passear e conversar fiado?
- Só somos amigos no Facebook, não misture as coisas! Tchau!

Sha naqba īmuru

Tivera um sonho estranho. Aparentemente havia feito um pacto com o diabo: riqueza em troca da alma. Acordou suado e confuso. Acalmou-se, contudo, quando notou que se tratava apenas de um sonho. Levantou-se e foi avaliar sua propriedade, cujos limites fugiam aos olhos. Pessoas trabalhavam na lavoura, e haviam animais espalhados pelos campos verdejantes. Sentou-se numa poltrona instalada sob uma das janelas da fachada da casa. Alguém lhe dá um tapinha nas costas, ele se vira. Ele não reconhece o homem. Ele pergunta: - Quem é você? - Sou o diabo. O homem apavorado diz: - mas eu não fiz pacto contigo. O diabo sorri e responde: - Nós nunca precisamos dessa formalidade, amigão!