Queria...
de quando o mundo era meu e só.
Queria poder voar, como em outrora,
e viver essa vida sem circunstâncias.
Como já fiz, mas que não faço agora.
Quando é tempo de parar!
É triste. Sinto pesar ao pensar que algumas experiências da vida possam ser algo tão cruel, e que existem pessoas que gostam de se submeter - por vontade própria - a tais situações sem se darem qualquer valor. Onde fica o auto-respeito, a auto-estima? Quem são essas pessoas? Será que elas algum dia conseguirão ver-se como pessoas?
Só penso então quando será o tempo de parar! Quando será a hora de ser ver como uma pessoa e se dar valor e buscar esse valor como ser humano. Buscar a felicidade ou algo parecido. Alguma satisfação pessoal que possa lhe dar prazer e vida. Sei que algumas opções são difícies, mas o que é mais difícil que não viver? O que mais difícil que sobreviver num ambiente hostil e totalmente inóspito sentimentalmente?
Jamais fui um catedrático nesses assuntos, entretanto quem o é? Quem tem o total controle da vida? Contudo, é preciso conhecer limites e saber quando é tempo de parar. E talvez, para estas pessoas, seja agora a hora.
Vitória...
Hoje...
Hoje eu queria poder dizer o que não sei;
Falar aos ouvidos dela
Coisas que agradam só a ela.
Dizer que sinto o que sinto,
Que sou puro amor e minto.
Hoje eu queria poder dizer sem piedade;
Dizer tudo o que acho que sei;
Proferir elogios ou só “cansei”;
Pensar em coisas vãs que vão
E esquecer que esquecer é tradição.
Hoje eu só queria poder falar sem medo;
Falar, talvez, do mundo poético,
Do amante de amores cético;
Falar que só existe tudo e nada,
E que já encontrei coisa na estrada.
Hoje eu queria poder falar do desentendido;
Do infinito: treva ignorada, aquário rico;
Da ilusão bela, forte e imprudente,
Que é tudo na vida de muita gente,
Que sempre vai, enquanto eu fico.
Hoje eu só queria poder falar, e falar, e falar...
De coisas desconexas, da qual não sei.
Talvez de sonhos que nunca terei,
Ou talvez do mundo que desconheço,
Em que acordo, vivo e sempre padeço.
Ninguém é imperfeito por querer!
A ideologia da perfeição é um mecanismo de controle muito eficaz, por meio dele algumas instituições conseguem obter vários resultados que lhes satisfazem. E quem não deseja ser perfeito? Quem não deseja ser o melhor entre os melhores?
Realmente ninguém é imperfeito por querer, justamente por que ocupa-se todo o tempo buscado o oposto disso: A perfeição. Nos ensinaram que o imperfeito é feio, e que o feio não é bom, e o que não é bom não é coisa de Deus.
Ser imperfeito e querer sê-lo é uma virtude? Admitir a imperfeição é admitir que existem limitações. Entretanto limitações existem para serem quebradas, por que o que se busca - neste mundo humano - é a perfeição. E a perfeição - todos sabem - é uma coisa que sempre está mais longe do que realmente parece, e quando alguém tê-la pego nota que não passava de uma miragem.
No fim das contas descobrimos que realmente "ninguém é imperfeito por querer", justamente por que a idéia de perfeito está ligado ao bem.
Do que se não deve pensar!
Encontrava-me em um estado em que tudo era mais que imaginável. Qualquer coisa, quer fosse real ou não. As idéias pareciam, a partir desse modelo de pensamento, liquidos em recipientes que eu mesmo criava. Elas - as idéias - tomavam a forma do recipiente e fluiam entre um recipiente e outro tomado vários tipos de forma. Porém, de um tempo pra cá começo a questionar as razões pelas quais a imaginação não parece simples conjuntura, mas situações que tem - se bem pensadas - podem se tornar reais.
Achei-me louco, não louco-louco. Entretanto um tanto quanto insensato. Até por que tudo quanto eu aprendo e aprendi refuta essa idéia. Será que invadiu-me um demônio maligno capaz de fazer com que perca minha sanidade? É bem provável, os demônios são bem disso. Eles consomem a mente das pessoas fazendo-as ficarem loucas com os pensamentos disconexos. No entanto, isso tudo de imaginação me parece tão real.
Abandonei todos os pensamentos, porém eles não me abandonaram. Neste instante estou sentado - encostado à parede da catedral -, pois a hora não me permite entrar e pedir a Deus que me oriente.
Um pensamento mais maligno, porém, também me recorre nesta hora. Penso que preciso açoitar-me até que a vida me seja escassa. Foi isso que aprendemos, e só assim posso expurgar qualquer mal.
Nesse instante, porém, começo a pensar: será que o mal é uma força identica à do bem? Com sentido inverso? Será que o mal é injusto e o bem justo? Será que açoitar-me é justo e bom? Enquanto divagar é injusto e mal? Será que foi o demônio maligno que me fez imaginar? Ou será que foi Deus quem me fez assim? Será o castigo bom? Será o castigo uma forma de volver-me aos preceitos dívinos? Serei eu uma criatura de Deus? Se não for devo me importar com a bondade? O que sou, senão isso que sou? Para que servem estes pensamentos? Os pensamentos, que não em Deus, são injustos e malignos?
Abandonei-me por dias aos questionamentos, mas não movi-me um centímetro de onde houvera sentado. Fiquei lá, com os olhos fixos em nada apenas pensando. Foi então que a guarda imperial me viu - imundo e mal-cheiroso. Tentou contato, mas - ainda compenetrado nos pensamentos - não falei-lhes uma palavra sequer que tivesse sentido. Tido fui por endemoniado, e antes que pudesse justificar qualquer estado encontrei-me com a morte num último banho.