Despeço-me

o nada engole minhas palavras
recito versos para olhos inchados
e quando o nada volta,
ainda estou paralisado.
despeço-me das palavras
como faço com o resto de vida
que acaba toda meia-noite
e as horas que não voltam
me lembram que amanhã é tarde
e hoje os dias são números
que não quero contar pra ninguém.
despeço-me de quem não vê
e não ouve, não por não ouvir
mas por escutar pequenezas
de outras estações.
despeço-me dos abraços
que ninguém me deu,
e que eu, por segundos,
cogitei abrir o guarda-roupas
para tirá-los de lá.
despeço-me dos beijos
que rasgaram minhas palavras
e se esconderam onde minha
voz jamais poderá alcançar.

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