quarta-feira, 2 de maio de 2018

Amar

Desilusões e paixões ligeiras,
sonhos e pesadelos do cotidiano,
eternidade de verbo leviano,
fortunas voláteis e passageiras.

Ainda que engenhoso o plano,
haverão desventuras e solidão,
pois não vive só de amor o coração,
nem só de pão o ser humano.

A vida é um mar de sensação,
com languidas quedas e pesar,
é estrada turva para a perdição,

é castelo para tudo o que cativar,
por isso, independente da tentação,
não busque o amor, busque amar.

sábado, 28 de abril de 2018

Louco é o mundo

Às vezes, passo distraído
pelos castelos da imensidão,
Vejo o céu puro de ilusão,
vejo o universo escondido.

Cores a cair da constelação,
naves de areia e luz insular.
Becos de casca de ambâr,
música no sopro de um vulcão.

Vejo a realidade evaporar
naquilo que não se concebeu.
Vejo a violência brincar

e sorrir em seu apogeu.
Pareço louco nesse estar,
mas louco é o mundo, não eu.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Rabiscar

Sempre quis rabiscar o céu.
Com cor, aroma, sabor.
Apenas senti-lo decompor
em pétalas lúdicas ao léu.

Rabiscar o nada, e tudo além.
Colorir as frestas da criação,
brincar com a imberbe perfeição.
Apagar tudo, e todo amém.

Eu quis rabiscar as vidas,
e os primitivos conceitos.
Rabiscar até os defeitos,

e todas as abertas feridas.
Rabiscar todo momento,
até meu moinho de vento.



terça-feira, 19 de setembro de 2017

Realidades

Eu tive que apagar
os versos que me
cercavam de verbos.

Eu tive que navegar
nas realidades que me
deixava aos soberbos.

Eu tive que ufanizar,
e, no lusco-fusco, me
contradizer aos lobos.

Eu tive que brutalizar
os conceitos internalizados,
e jogar-me aos bobos.

Eu tive que imaginar
a vida como fluência,
e fingir aos agoráfobos.

Eu tive que suprimir
a potência, a fim de
viver alguns arroubos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Confusão

As vezes parecia]
que a real-
                 idade,
Se repartia em castelos de areia/
partidos.
              Eu só queria,
       continuar as cantigas madrigais.
Saudade;
               Tempo pretérito não concebido.
               Por que tão perdido?

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Paixões e erros

Talvez os seres humanos estejam despidos
das paixões e dos erros.
Paixões e erros que os tornam
almas jovens.
Transgredir o tempo é apaixonar-se
pela vida
repetidas vezes e esquecê-lo
- o tempo -
a cada nova transgressão.

~20/08/2012

No meu quarto...

Na escuridão do meu quarto,
eu liberto o meu eu-calado!
Falo para Galileu que a terra
ainda é Quadrada.
Dou risada da desgraça alheia,
sem medo dos que de mim riem.
Admiro o piso sujo e mal-acabado,
vejo os insetos através do buraco
da janela. Vejo o mundo através dela.

Na solidão do meu quarto,
digo aos mortos que ninguém
pode entender os vivos.
Digo que ninguém mais vive!
Respeito o isolamento alheio,
respiro fundo, grito, serpenteio.
Invento poemas ao nada,
faço viagens na imaginação,
interpreto um homem são!

No abstrato do meu quarto,
eu sou algoz, sou infinito, sou...
sou truão!
Uso termos desconhecidos,
faço versos às formigas,
investigo mortes não havidas,
mastigo as minhas feridas!
Remonto quebra-cabeças,
que jamais tiveram peças!

No interior que é o meu quarto,
sou malabarista das minhas vitórias!
Faço cores com derrotas,
e pinto o mundo com minhas botas.
Escrevo na claridade sobre o dia,
vejo pássaros sem asas voarem,
faço amizade com as baratas,
e me enclausuro no contar da hora!
Lá sou tudo que não sou aqui fora.

~18/10/2011

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Distopia

Casará ainda muito nova, aos vinte e um anos. A vida era frugal, mas ela gostava dos sabores pitorescos. Não acompanhava a vizinhança, e fazia gosto da distância. Por educação cumprimentava, mas mal sabia o nome do padeiro da esquina. O marido, ao contrário, era um homem simpático, educado e, principalmente, apaixonadíssimo pela esposa. E dizia: "Por ela faço tudo". As vizinhas não acreditavam em sua santidade: "homem é safado por instinto", mas ele não dava samba. 

Após três anos de casados, a vida parecia entrar numa rotina típica do triênio marital. Os dias se resumiam a trabalho, jornais, novelas e afazeres domésticos, da qual o marido sempre participava. Não queriam filhos, achavam-se novos, e com as economias planejavam viagens à praia, que sempre eram postergadas por gastos extraordinários.

Quando completaram exatos cinco anos de casamento ela chamou-o para jantar, e, enquanto ele se preparava, ela fez o pedido: "Quero uma surra de presente". O marido, sem reação, disse: "Deixa de bobagem, e sente-se" e sorriu gentilmente. Ela insistiu: "Uma surra, por nosso casamento". O homem, que jamais pensou em agredir qualquer pessoa, não sabia como reagir. O pedido não parecia surgir de uma pessoa sã. Pensara, na hora, que sua esposa poderia estar com alto índice de stress ou com depressão. De qualquer forma, não sabia como reagir. "Não posso, não tenho coragem". Ela, todavia, foi relutante: "Ou uma surra ou o divórcio".

Diante da situação, ele apoderou-se de um medo terrível e, sem pensar nas consequências, bateu em sua esposa como nunca havia feito em sua vida. Ela, porém, não chorava, parecia a cada novo golpe mais e mais eufórica. Gemia e pedia para que batesse mais e mais. Extenuado ele cai, e ela sobre ele. Ao vê-la, quase sem vida, e extremamente machucada, percebeu que ela já não era sua bela e amada esposa.

A solidão, então, o contamina. Sentia como se houvesse perdido o amor de sua vida, embora ela sangrasse ao seu lado no chão da cozinha. Ele a beija, no ímpeto de recuperar o amor que abrasava seu coração, mas só sente sangue. O abismo é cada vez mais medonho. Ela sorria, ele despedaçava. Tomado pela brutalidade da vida, segue até o banheiro e, com uma tesoura, fura os dois olhos. Não podia ver o que antes era a felicidade, portanto decidiu apenas senti-la. Foram felizes, e em todo aniversário de casamento a comemoração era banhada de sangue.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Noite

Tirou do bolso um maço surrado de cigarros. Bateu-o contra a mão oposta até que um cigarro saltasse ao maço. Tomou um cigarro pela boca, e deixou cair o maço em seu colo. O cigarro aguardava o fogo. Ele estava disperso olhando o horizonte. O alaranjamento devorava o céu azul, e ao mesmo tempo era devorado pelo negrume da noite. Parecia ser uma decisão difícil. Ele pegou o esqueiro no bolso da calça, mas não tirou a mão do bolso. Deixou-a lá, inerte, como que se dela fosse a responsabilidade. Tudo alaranjou, depois enegreceu. Quando a noite caiu, ele fumou, e esperou que o céu caísse sobre si, mas era o si sendo maior que o céu.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Devir

Quem dirá adeus aos velhos hábitos,
e se norteará por vales sombrios?
Quem fará da mente lagos e rios,
em que correram novos espíritos?

Quem dirá adeus às velhas convenções
enquanto engole todas as mundanidades?
Quem dará os ombros às verdades,
e não se esconderá das desilusões?

Há quem espere a decrepitude
de uma vida bucólica e senil.
O ofuscar dos dentes, a vicissitude,

o palácio de um mundo vazio.
Há que não queira apenas existir,
queira o viver, queira o devir.