sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Confusão

As vezes parecia]
que a real-
                 idade,
Se repartia em castelos de areia/
partidos.
              Eu só queria,
       continuar as cantigas madrigais.
Saudade;
               Tempo pretérito não concebido.
               Por que tão perdido?

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Paixões e erros

Talvez os seres humanos estejam despidos
das paixões e dos erros.
Paixões e erros que os tornam
almas jovens.
Transgredir o tempo é apaixonar-se
pela vida
repetidas vezes e esquecê-lo
- o tempo -
a cada nova transgressão.

~20/08/2012

No meu quarto...

Na escuridão do meu quarto,
eu liberto o meu eu-calado!
Falo para Galileu que a terra
ainda é Quadrada.
Dou risada da desgraça alheia,
sem medo dos que de mim riem.
Admiro o piso sujo e mal-acabado,
vejo os insetos através do buraco
da janela. Vejo o mundo através dela.

Na solidão do meu quarto,
digo aos mortos que ninguém
pode entender os vivos.
Digo que ninguém mais vive!
Respeito o isolamento alheio,
respiro fundo, grito, serpenteio.
Invento poemas ao nada,
faço viagens na imaginação,
interpreto um homem são!

No abstrato do meu quarto,
eu sou algoz, sou infinito, sou...
sou truão!
Uso termos desconhecidos,
faço versos às formigas,
investigo mortes não havidas,
mastigo as minhas feridas!
Remonto quebra-cabeças,
que jamais tiveram peças!

No interior que é o meu quarto,
sou malabarista das minhas vitórias!
Faço cores com derrotas,
e pinto o mundo com minhas botas.
Escrevo na claridade sobre o dia,
vejo pássaros sem asas voarem,
faço amizade com as baratas,
e me enclausuro no contar da hora!
Lá sou tudo que não sou aqui fora.

~18/10/2011

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Distopia

Casará ainda muito nova, aos vinte e um anos. A vida era frugal, mas ela gostava dos sabores pitorescos. Não acompanhava a vizinhança, e fazia gosto da distância. Por educação cumprimentava, mas mal sabia o nome do padeiro da esquina. O marido, ao contrário, era um homem simpático, educado e, principalmente, apaixonadíssimo pela esposa. E dizia: "Por ela faço tudo". As vizinhas não acreditavam em sua santidade: "homem é safado por instinto", mas ele não dava samba. 

Após três anos de casados, a vida parecia entrar numa rotina típica do triênio marital. Os dias se resumiam a trabalho, jornais, novelas e afazeres domésticos, da qual o marido sempre participava. Não queriam filhos, achavam-se novos, e com as economias planejavam viagens à praia, que sempre eram postergadas por gastos extraordinários.

Quando completaram exatos cinco anos de casamento ela chamou-o para jantar, e, enquanto ele se preparava, ela fez o pedido: "Quero uma surra de presente". O marido, sem reação, disse: "Deixa de bobagem, e sente-se" e sorriu gentilmente. Ela insistiu: "Uma surra, por nosso casamento". O homem, que jamais pensou em agredir qualquer pessoa, não sabia como reagir. O pedido não parecia surgir de uma pessoa sã. Pensara, na hora, que sua esposa poderia estar com alto índice de stress ou com depressão. De qualquer forma, não sabia como reagir. "Não posso, não tenho coragem". Ela, todavia, foi relutante: "Ou uma surra ou o divórcio".

Diante da situação, ele apoderou-se de um medo terrível e, sem pensar nas consequências, bateu em sua esposa como nunca havia feito em sua vida. Ela, porém, não chorava, parecia a cada novo golpe mais e mais eufórica. Gemia e pedia para que batesse mais e mais. Extenuado ele cai, e ela sobre ele. Ao vê-la, quase sem vida, e extremamente machucada, percebeu que ela já não era sua bela e amada esposa.

A solidão, então, o contamina. Sentia como se houvesse perdido o amor de sua vida, embora ela sangrasse ao seu lado no chão da cozinha. Ele a beija, no ímpeto de recuperar o amor que abrasava seu coração, mas só sente sangue. O abismo é cada vez mais medonho. Ela sorria, ele despedaçava. Tomado pela brutalidade da vida, segue até o banheiro e, com uma tesoura, fura os dois olhos. Não podia ver o que antes era a felicidade, portanto decidiu apenas senti-la. Foram felizes, e em todo aniversário de casamento a comemoração era banhada de sangue.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Noite

Tirou do bolso um maço surrado de cigarros. Bateu-o contra a mão oposta até que um cigarro saltasse ao maço. Tomou um cigarro pela boca, e deixou cair o maço em seu colo. O cigarro aguardava o fogo. Ele estava disperso olhando o horizonte. O alaranjamento devorava o céu azul, e ao mesmo tempo era devorado pelo negrume da noite. Parecia ser uma decisão difícil. Ele pegou o esqueiro no bolso da calça, mas não tirou a mão do bolso. Deixou-a lá, inerte, como que se dela fosse a responsabilidade. Tudo alaranjou, depois enegreceu. Quando a noite caiu, ele fumou, e esperou que o céu caísse sobre si, mas era o si sendo maior que o céu.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Devir

Quem dirá adeus aos velhos hábitos,
e se norteará por vales sombrios?
Quem fará da mente lagos e rios,
em que correram novos espíritos?

Quem dirá adeus às velhas convenções
enquanto engole todas as mundanidades?
Quem dará os ombros às verdades,
e não se esconderá das desilusões?

Há quem espere a decrepitude
de uma vida bucólica e senil.
O ofuscar dos dentes, a vicissitude,

o palácio de um mundo vazio.
Há que não queira apenas existir,
queira o viver, queira o devir.

domingo, 6 de outubro de 2013

Traição

Bento recebe uma ligação. Escobar, Emília e Ezequiel estão mortos. Com espanto Bento busca informações do ocorrido, e lhe falam das suspeitas de traição e suicídio de Escobar. O comentário era que Emília estava de caso com Ezequiel, seu primeiro amor e que Escobar pegou-os no ato e os matou.

Uma semana antes Escobar aguardava com uma expressão indizível à porta da casa de Bento. Logo que o amigo aparece à porta, encosta-o contra a parede e diz: - Minha mulher me trai. Bento, sem pensar, diz que é loucura de Escobar, mas o outro é taxativo. - Tenho minhas queixas, só preciso de uma prova para acabar com tudo. No caminho do trabalho, Escobar expõe suas aflições e Bento apenas ouve. Ao fim do expediente, Escobar encontra Bento e expõe seu plano. - Se se confirmar eu mato.

Nos dias que se passam Bento ouve as queixas do amigo, e sempre lhe fala: - é ideia tua. Escobar, entretanto, está transtornado, e tornou-se outra pessoa, consumido pela ideia de que Emília o possa estar traindo.

Escobar conta a Bento que contratou um detetive particular, e que dentro em breve terá provas da traição da esposa. Bento apenas diz que não acredita no caso. O detetive instala escutas telefônicas na casa de Escobar e descobre que Emília vai se encontrar com um homem, da qual não  conseguiu identificar.

É sábado, Bento faz duas ligações. Escobar está irreconhecível, mas mantém seu plano. Às três da tarde Emília diz que precisa ir ao mercado, que volta dentro de poucas horas. Escobar soa frio, vai até seu guarda-roupas, pega um revolver e sai.

Às três horas, Escobar está no endereço fornecido pelo detetive, aguardando Emília. Às três e cinco horas, Emília chega, toca a campainha e entra. Escobar aguarda inquieto no carro por dez minutos, e então vai até a porta do imóvel. A porta está aberta. Escobar entra, e se dirige, com o revolver à mão, ao quarto. Abre lentamente a porta do quarto flagra Emília deitada e Ezequiel sobre ela. Ouve-se três tiros.

Bento recebe uma ligação. Escobar matou Emília e Ezequiel, depois se matou. Bento, após desligar o telefone, solta uma gargalhada. O plano funcionou, deitado ele relembra do telefonema que deu a Emília e a Ezequiel. Emília o rejeitara como marido, e escolheu Escobar, ambos pagaram o preço.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Descaindo

O dia descaiu, e o sol poente sequer subiu. Ficou ali no horizonte olhando como quem olha o infinito. A noite descaiu, e a lua crescente sucumbiu. Empreteceu o céu, e iludiu quem se ilusionava. A vida descaiu, e servil. Apequenou-se no céu sem sol de nuvens descaídas. A paixão descaiu, e aos insanos sanou senil. O amor descaiu, e no seu descaimento - profundo, insano, ardil - o mundo sumiu.

domingo, 10 de março de 2013

O simulador

Em 2059 os vídeos-games são escassos, e perderam muito espaço para o computador quântico e a internet por satélite. Os jogos simuladores são o que há de mais tecnológicos. A imagem HD já não existe. Agora é usado um simulador de realidade, em que o jogador é imerso no jogo. Os jogos de guerra são cada vez mais comuns, e simulam com muita fidelidade os "battlefields".

Todos os jogos estão conectados na grande rede de internet. No final do ano de 2058, uma empresa, até então desconhecida, lança gratuitamente o jogo "War Generation". Com pouco menos de um mês já existiam mais de cinco milhões de pessoas conectadas ao jogo. A simulação era tão fiel que os jogadores poderiam jurar que estavam matando pessoas verdadeiras.

No "War Generation" os jogadores comandavam as "Destroyers" máquinas cibernéticas construídas para evitar que pessoas fossem para os "BattleFields". Os mapas do jogo simulavam territórios reais de vários países.

Viciante e perturbador, o jogo, no fim do ano de 2059, atingiu mais de sete milhões de jogadores. Ocorreu, contudo, que por uma suposta falha no servidor central do jogo, só poderiam entrar novos jogadores quando outros fossem destruídos.

Num paralelo, no mesmo ano, as guerras por água potável, minérios e petróleo estão por todos os lados do mundo. Países com alta tecnologia bélica fizeram investidas contra países menores e com pouca tecnologia bélica. Os noticiários, a maioria ligados aos seus governos, camuflavam os verdadeiros motivos das guerras. E os robôs cibernéticos eram usados para invadir e atacar os territórios. As "dívidas" da guerra eram pagas com as riquezas das nações. Eram verdadeiros golpes de estado.

"War Generation" continuava a todo vapor; Os melhores "destroyers" recebiam medalhas e promoções dentro do jogo. Alguns eram promovidos para generais, outros recebiam capacitação para controlar "destroyers" voadores, outros para "destroyers" aquáticos. O fato era que o exército "destroyer" estava cada vez mais capacitado, e cada vez melhor nas batalhas. As baixas dos "destroyers" diminuíam a cada ano. Os treinamentos eram cada vez mais frequentes. E os exércitos podiam ser deslocados de território sem prévio aviso. Os "destroyers" munidos de arma laser, e quase não ficavam sem munição, entretanto existiam os "saviors" que faziam a troca de munição dos "destroyers" sempre a munição estivesse por acabar.

A popularidade do jogo era enorme, e jogadores bem colocados no ranking do jogo faziam "live stream" e cobravam para que os usuários assistissem suas partidas.

"Killer" era o melhor jogador. O número um do ranking mundial. Ele morava em "Wealth", um país populoso e muito opulento em água, minérios e petróleo, e que ficava no oeste da Asia. A prosperidade do país foi sempre "bem vista" por muitas potências mundiais (alguns diziam que cobiçada). Acontece, porém, no início do ano de 2060 o país travou a exportação de água potável, minérios e petróleo. Isso por que seu mercado interno carecia de melhor atenção. Isso causou alvoroço em todo o mundo. A organização do comércio da terra instituiu embargos contra "Wealth", porém isso não foi suficiente para mudar o panorama. O país resguardou suas reservas para sua própria população.

Dois meses após o conflito, o império do norte noticiou que "Wealth" estava criando a bomba de nêutrons e que se o país não paralisasse a produção eles tomariam medidas drásticas. "Wealth" liberou uma nota mundial informando que as pesquisas que estavam fazendo tinham fins pacíficos e voltadas para a produção de combustão fria. Emitiu relatórios sobre as pesquisas, entretanto os relatórios jamais foram divulgados. Deu-se, então, uma nova guerra. O império do norte invadiu "Wealth". Colocou todas as suas tropas cibernéticas do ar, terra e água. "Wealth" se defendeu com seus exército de exoesqueleto.

"Killer" continuava jogando. Soubera da guerra, e resolveu não fazer parte do exercito do seu País. A guerra já ocupava vários Estados de seu país. As tropas de ambos os países tinham muitas baixas. Ele só sabia do que via os jornais de seu País divulgar. Enquanto isso, "Killer" se descobriu num território parecidíssimo com seu País. Entre um mapa e outro acabou destruindo monumentos idênticos aos existentes em seu País. Quando a guerra chegou a sua cidade, "Killler" continuou jogando. Os robôs cibernéticos do império do norte estavam em confronto com o exército de "Wealth".

Nos dias que se seguiram, o exército de "Wealth" conseguiu repelir o exército do império do norte. "Killer" que já estava ressabiado com o jogo, descobriu que tinha sido enviado para um mapa que era idêntico à sua cidade natal. Começou a jogar e destruiu algumas unidades inimigas, e para sua surpresa se deparou com um monumento que só havia em sua cidade a estátua da colina do norte. "Killer" ficou perplexo. Não queria acreditar que ele, um simplório jogador, era na verdade uma das unidades da tropa do exército do império do norte, e que aquilo que ele pensava ser um jogo era, na verdade, um programa de controle de unidades verdadeiras; Entrou num profundo conflito interno, e não sabia o que fazer. Continuar não era uma opção. "Killer" comunicou o governo e as agências de inteligência militar, e determinou que suas tropas recuassem. Numa jogada de inteligência e astúcia, informou a todos os jogadores que a forma de jogar "War Generation" havia mudado. Doravante os confrontos seriam entre os próprios jogadores, e só assim acumulariam pontos. Destruição de território e de qualquer povo estava proibido e os jogadores que insistissem seriam banidos e/ou perderiam pontos do ranking. Os jogadores começaram a se digladiar. Alguns jogadores, alcançaram alta pontuação em pouco tempo. O sistema não reconhecia o fogo amigo como falha, mas como parte do "jogo". Em pouco tempo, as tropas do império do norte estavam acabadas. Apenas algumas unidades sobraram.

Quando o império do norte se deu conta de que alguém teria descoberto que o "War Generation" não era um jogo, eles imediatamente desativaram o sistema, e sumiram com os servidores. Enquanto isso, os jornais de alguns países aliados de "Wealth" já começavam a divulgar o sistema do império e comentar a trama diabólica. A repercussão mundial não demorou. Os países aliados se unirão para atacar o império do norte, enquanto isso eles já preparam outro jogo o "fourth war". Uma nova guerra deveria começar em breve, dessa vez o império do norte seria o único alvo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O acidente

O jornal do meio-dia noticiava: "Jovem morre em acidente na rodovia...". Segundo a notícia o motorista dirigia fora do limite de velocidade permitida para o trecho, e teria perdido o controle do veículo e capotado várias vezes. Morreu no local. Nem o cinto de segurança, nem o Airbag salvaram a vida do jovem. A notícia ainda contava que no local do acidente reuniram-se muitos curiosos, entre eles um chorava muito. Aparentemente, ver aquele homem, cuja cabeça estava desfigurada, causou-lhe muita consternação. O repórter entrevistou um dos peritos que se encontrava no local e este ressaltou que a causa da morte seria múltiplas fraturas. O perito ainda disse que não havia sinais de racha ou assassinato.

Longe da cena do acidente um homem andava atormentado. O jovem morto, sua cabeça desfigurada, o carro destruído... toda aquela cena que ele vira com os próprios olhos agora o atormentavam. Ele, homem religioso e temente a Deus, rezava para que aquela tormenta passasse. Não passava. Um mês após o acidente ainda tinha sonhos com aquela cena horrenda.

O homem visitou o jovem no cemitério. Rezou pela alma do jovem, e até fez promessa. Nada funcionou. Os dias se passavam e o homem continuava a ter sonhos cada vez mais terríveis com o jovem desfigurado. Na maioria das vezes ele sonhava com o acidente, e com o jovem levantando no carro e falando algo que não entendia.

Já haviam se passados longos três meses e os sonhos ainda não tinham parado. O homem já não sabia mais o que fazer. Já tinha acendido mais de duas mil velas para a alma do jovem, crendo que fosse ela quem o atormentava.

Com os sonhos cada vez mais reais, ele passou a ter medo de dormir. Tinha insônias terríveis e passava dias sem pregar os olhos. Era um caco em pessoa. Estava desatento, trabalhava pouco e passava o dia ocupando a mente, porém era só pregar os olhos por um segundo que os sonhos apareciam e o atemorizavam.

Após seis meses do acidente, o homem alucinava. Conversava com quem não existia, falava sobre uma suposta perseguição. Ninguém entendia. A única coisa recorrente na vida daquele homem, era o fato de os sonhos persegui-lo. Era um humilde e solitário borracheiro. Por que diabos tinha que ser tão atormentado?

Exatamente um ano após o acidente outra tragédia era narrada pelo âncora do jornal local. No mesmo local do acidente anterior, um homem havia sido atropelado. O repórter contou que o socorro chegou tarde, e que o homem não sobreviveu. O repórter contou ainda que os policiais encontraram uma carta com o homem, e que tal carta indicava um provável suicídio.

O repórter contou que o homem narrou na carta que estava sendo atormentado por sonhos terríveis e que estaria sendo perseguido pelo espírito do jovem desfigurado do acidente de um ano antes. Relatou que viver tornara-se impossível. Contou que fizera tudo para conseguir viver em paz, entretanto, não obtivera êxito. Por fim, relatou que matara o jovem desfigurado. Acidentalmente, mas tinha matado. A carta continha tinta borrada, marcas que demonstravam que o homem a tinha escrito sob choro. Numa das passagens, o homem relatou que cerca de duas horas antes do acidente do jovem desfigurado, ele próprio teria jogado vários pregos na rodovia. Que viu o acidente, e sabia que o tinha ocasionado acidentalmente. Concluiu a carta dizendo que: "após um ano do acidente do jovem, compreendi que só a morte paga a morte."